Hoje, fumei um cigarro, no peitoril da janela, agora há pouco, depois de jantar e tomar guaraná. O gosto do cigarro misturado com guaraná foi extremamente agradável. E fumar de novo, ver o cigarro entre os meus dedos, na minha mão tão bonita, com um contorno claro por causa da luz estranha, foi como rever quem eu sou.
Eu geralmente não tenho vontade de fumar. Uma vez minha terapeuta me disse, e isso é geralmente motivo de muita risada pras pessoas que ouvem essa história, ela me disse que o cigarro representava um falo, um pênis, o meu desejo de possuir a figura masculina. Talvez seja isso.
No dia oito de fevereiro vou completar quatro meses sem tocar nem ser tocada nem beijada nem apreciada, quatro meses sem ouvir ninguém me dizer que eu sou indizivelmente sexy, que se estivesse mais bêbado diria eu te amo ou me perguntando se precisa me "xavecar" ou se pode ir direto ao assunto numa poltrona de cinema assistindo Karate Kid.
Hoje, me contaram o que pensam de mim quando falo abertamente sobre sexo. Um amigo me disse "isso assusta, passa uma imagem promíscua, você fala muito alto, principalmente dentro do ônibus." Isso assusta. Outro amigo insiste em me chamar de ninfomaníaca. Aliás é impressionante como eu tenho uma quantidade razoável de amigos agora. AmigOs. Antigamente eu invejava isso, agora eu vejo que, não sei. Nenhum amigo desses representa nenhuma possibilidade, então não tem aquela graça que eu pensei que fosse ter.
Eu não sou ninfomaníaca. Nem percebo se falo muito alto no ônibus, quando digo pro meu amigo que duvido que um jato de gozo realmente vá longe como acontece nos filmes pornôs. Já não é a primeira vez que me dizem "por quê você diz essas coisas publicamente? isso passa uma imagem errada" e ninguém me diz não faça mais isso porque eu me preocupo com você e com essa sua imagem. Eu poderia aceitar melhor se alguém dissesse isso, mas não consigo entender. Não entendo homens. Sim, eu fiquei magoada quando ele me disse que "isso assusta". Eu não sei se é parte de mim ou se é parte do que eu quero mostrar que eu sou. Escandalizando homens falando de sexo abertamente, mas é como um outro amigo me disse. Se você acha estranho uma mulher que fala de sexo, vá transar com uma parede. (ou com uma boneca inflável, ou com um cadáver)
E não importam os quatro meses, às favas os quatro meses. Eu passei dezenove anos.
Pois bem, que eu bata meu recorde. Mais dezenove anos de solidão e muitos outros cigarros, falos imaginários que ficam tão bonitos na minha mão direita, entre os meus dedos compridos de mulher que fala de sexo, com o cotovelo apoiado e o punho meio jogado, daquela forma que eu acho tão incrivelmente linda e feminina.
Que eu seja eu, acima de tudo. Não quero que você me mostre quem você é, porque não tenho interesse em você. A solidão faz de mim um vendaval de coisas que eu não vejo.
E isso é tudo drama. Não importa, não importa nada, nada na vida, não me importo de ser chamada de promíscua ou de ser estuprada. Eu não deixei aquele cara passar a mão na minha bunda, naquele dia, no metrô? Não senti um prazer enorme, um tesão incrível, cheguei em casa molhada? Acabei dizendo a ele que desceria em Santana, e corri um risco enorme sem perceber? E depois disse a ele foi bom mas vai embora. Até ri da cara dele. Você vai me achar vulgar por estar escrevendo isso aqui também? Eu não me escondo, é verdade. Eu tenho muita vergonha disso tudo.
Nada disso é meu travesseiro, meu coletor de lágrimas, não tenho ombro amigo e nem nunca tive. Quanto mais me dizem sobre mim, menos eu quero saber.
Quanto mais ele me conta sobre ele, menos eu quero ouvir.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
repara na maloca que ele juntou ali
Pipas azuis e meninos vestindo azul, uma horta, um pomar. Ela encontrou um livro de contos eróticos que de eróticos não tinham nada, e contaram pra ela que acharam uma foto pornô de um negão com um instrumento enorme dentro de uma inocente revista do Sesc no vestiário feminino da piscina.
Repara, repara na maloca que o marido da minha tia juntou ali, dentro da casinha de madeira, com cheiro de graxa familiar e reconfortante, do lado do fusquinha velho esganiçado de tanto enferrujar. Que maloca. Ovos de codorna, pássaros pretos e pombos.
Ele usava uma camiseta semixadrez verde escura ontem. Um allstar verde escuro também. Ele foi tão bonitinho, e segurou a minha manga, e foi tão bonitinho, e eu disse isso pra ele, e ele me disse "é, isso foi muito bom, não foi?" e nós rimos. Quem é ele? Quem sou eu, de cabelo preto, uniforme, jeans e melissa? Se for pra acontecer, ele vai voltar. Ele sabe onde me encontrar, e só espero que ele tenha olhado no crachá, assim ele vai lembrar do meu nome. Ele vai voltar, ai, mãe, deixa ele voltar, ou que deus permita, mas eu não acredito em deus.
"Um ovo, eu achei que já não podia mais."
Repara, repara na maloca que o marido da minha tia juntou ali, dentro da casinha de madeira, com cheiro de graxa familiar e reconfortante, do lado do fusquinha velho esganiçado de tanto enferrujar. Que maloca. Ovos de codorna, pássaros pretos e pombos.
Ele usava uma camiseta semixadrez verde escura ontem. Um allstar verde escuro também. Ele foi tão bonitinho, e segurou a minha manga, e foi tão bonitinho, e eu disse isso pra ele, e ele me disse "é, isso foi muito bom, não foi?" e nós rimos. Quem é ele? Quem sou eu, de cabelo preto, uniforme, jeans e melissa? Se for pra acontecer, ele vai voltar. Ele sabe onde me encontrar, e só espero que ele tenha olhado no crachá, assim ele vai lembrar do meu nome. Ele vai voltar, ai, mãe, deixa ele voltar, ou que deus permita, mas eu não acredito em deus.
"Um ovo, eu achei que já não podia mais."
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