quarta-feira, 8 de abril de 2009

este é meu último post neste blog. o que ele significou para mim foi uma espécie de libertação, foi um modo de me expressar como eu há muito tempo não fazia. mas isso foi também, em parte, a bandeira da minha perda de identidade. talvez eu tenha só posto para fora o que eu sinto de verdade, mas saiba que tenho sofrido o suficiente nestes últimos dois meses. por compaixão por alguém que é a pessoa mais parecida comigo que eu já conheci, quis me tornar, me esforcei, talvez até me tornei a pessoa mais parecida com ele, me perdi. por compaixão, e também por egoísmo meu, que sou extremamente carente. se você não entender isso, não tem problema, eu mesma não entendo.

mas encerro isto por aqui. não posso voltar atrás, eu sei que não. sinto muita saudade dele, penso nele todos os dias. e vou sofrer por mais algum tempo, mas tenho que seguir em frente. decidi que vou viver por mim mesma e pelas pessoas que eu amo. vou viver por amor a mim mesma, e não pela esperança de ser amada, porque na verdade eu já sou.

não vou perder minha capacidade de amar, percebi que posso me apaixonar até por uma pedra, por qualquer pessoa do mundo, até um tipinho nojento ou uma mulher. sou capaz de amar, sem ver meu corpo, vendo só o branco de mim, o contorno da minha alma. e vou até o fim. é quem eu sou. vou viver por quem eu sou.

ainda assim, admito que a saudade é imensa, e me fez chorar de um jeito que eu nunca tinha chorado antes, um choro que parecia eu desesperadamente tentando tirar alguma coisa amarela, avermelhada, quente, de lá de dentro de mim, mas não saiu, então chorei. é isso. vou fazer o máximo para não escrever mais aqui. adeus. mil beijos de despedida. adeus.

seiva

ele vem de um plano distante. está sempre do outro lado. ele vem, e nós vamos nos conhecer, e vamos olhar um para o outro; e saberemos. saberemos que vai dar certo. eu saberei que vai ser diferente. ele vem, ele vem. vai segurar a minha mão e acariciar meus cabelos, dedilhando cada cacho, como eu sempre quis que alguém fizesse. vamos sentar lado a lado, sair juntos, andar de mãos dadas pelo parque. vou beijá-lo suavemente, vou fazer tudo devagar, vou amá-lo sem silêncio, não vou fugir e não vou chorar. sentir o rosto dele nas minhas mãos, sentir as mãos dele em mim. e depois, depois de tudo, nós vamos nos cansar de amor e vamos dizer tudo. ele vai sentar ao meu lado. sim, vai segurar a minha mão. vou segurar a dele. ele vem. ele vem. preciso acreditar que ele vem. estou vazia. preciso acreditar. porque sou a pessoa mais vazia do mundo. as lágrimas nunca secam, eu sempre tenho mais para derramar. preciso acreditar, meu amor, que você vem. mas não acredito. não acredito. não acredito. não acredito. não acredito. não tenho mais nada. estou vazia. quero chorar. estou vazia. não acredito. vida, volta para mim. onde foi que eu me perdi. onde você está. estou revoltada, estou sozinha, e onde você está? não acredito mais. ele vem. não, não, ele não vem. e eu sei disso. eu não acredito. dói muito. mas o que dói é um nada. como um vazio pode doer. o meu dói. o meu dói muito, o meu vazio dói, o meu vazio pesa e derrete como lava, e me corrói e desce de mim até o centro da Terra, e leva uma parte pesada de mim junto, e eu fico aqui, tentando alcançar lá, e dói muito, essa saudade, essa lava queimando, esse peso. ele não vem nunca, esse maldito, meu amado, meu querido, meu ausente. ele não vem e eu estou morrendo. estou me desfazendo, estou pegando fogo, estou queimando como pinga queima, me transformo no oxigênio, chego ao céu e depois caio de novo, pois me desfaço como lava. esperando por ele. ele, que nem me conhece, ou talvez conheça, eu não o conheço; ele nunca vem. e nunca saberemos. e nunca viveremos todos os meus sonhos. nunca. nada. ele não vem. não tenho palavras para descrever o grande fim que está aqui dentro. não encontro palavras. é um vazio pesado, é um fim esvaziado. é a minha morte. é a minha vida. é meu fardo. é minha mentira. é meu desejo enorme e carregado de amar, amar, amar. é minha saudade enorme. é o meu pensar todos os dias nele. meu martírio, minha tortura. ele não vem. ele não veio. ele nunca virá. acabou. meu fim. meu devaneio, meus dedos, meus olhos, meu cabelo, cada fio de mim, cada pedacinho se desfaz e se solta, e voa e volta e queima e morre. todos os dias. sem ele. ele não vem. estou esperando. vem. vem. vem. vem.

sábado, 4 de abril de 2009

PÁVIDA

Descobri que estou grávida.
Grávida de mim mesma.
O meu sangue não vem já faz um mês.
Estou grávida, portanto.
De mim mesma.

Vou parir o novo messias.
Ainda se meu nome fosse Maria.
Vou até sair no jornal,
em grandes letras pretas.
Vou jorrar um filho.

Um clone de mim.
Talvez até dois, e vou poder ir às lojas de bebês,
e comprar todas aquelas coisinhas interessantes,
e minha barriga vai crescer,
e depois de nove meses,
um clone de mim.

Minha vida vai fazer sentido.
Vou nutrir e crescer,
e amamentar, e cuidar.
De alguém mais que não eu, clone, bebê.
Vou saber o que é ser mãe,
e vai bastar.

Sentir algo crescer nas minhas entranhas,
mágico, não saber nem de onde veio.
Vou gritar para o mundo que os modos atuais de concepção são mentiras,
que é possível engravidar de si mesma.
Letras, rostos, olhos, cores, tudo vai sair de mim.
Sangue, e veias, e tecido, e homens, tudo vai sair de mim.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Existem Sóis artificiais.
Você olha pela janela, então vê uma nuvem.
Então vê um Sol, mas olha, ele está se mexendo.
O Sol não se mexe, o Sol nunca se mexe.
Mas você pode fingir,
me deixa brincar com isso.
É um sol artificial, que dança entre as nuvens,
e qualquer dia desses,
ah,
qualquer dia desses,
ele vai colidir diretamente com você,
diretamente com a sua cabeça.

Existem também bons momentos.
Você passa um mês dedicando sentimentos, então eles vão embora.
Então você os deixa ir, mas quando percebe, não importa mais.
E você percebe que ninguém nunca esteve realmente lá.
Mas você pode fingir,
ah, e você certamente fingiu.
São sentimentos artificiais, ou talvez verdadeiros,
que passam,
vão,
e ainda bem,
passam.
E levam um pedaço sangrento da gente.

Existem também pequenas minhocas.
Você anda e então vê uma minhoca no vão entre duas lajotas do chão sujo da cidade.
Então você pára, você pára seu dia, você pára seu caminho.
A minhoca rasteja, e faz tanto tempo que você não vê uma minhoca.
Mas você de repente a ama,
e a observa, um doido que pára seu caminho para observar um serzinho.
É uma minhoca, uma metáfora do seu passado de menino,
e você sorri,
porque ama a minhoca,
a terra te chama de volta,
serzinho.
Pequeno lembrete de que o passado existe, e não existem fardos, existem gravames de imagens, e seguimos o caminho.

Existem pessoas, muitas pessoas.
Você achou muitas pessoas e pensou que, meu deus, elas eram todas iguais!
Então, elas são mesmo todas iguais.
Sua cabeça mergulhada num livro.
Não levanta mais a cabeça para as pessoas todas iguais.
Você sabe que ele não estará lá,
daí sua cabeça mergulhada num livro.
Seja como for,
as pessoas são todas iguais.
E seus dias seguem como formigas, um após o outro,
vamos viver,
vamos viver, pelo amor de deus,
viver pelo menos por um segundo,
nem que em seguida a Terra seja engolida por labaredas,
e a cena estranhamente engraçada de seres humanos correndo com seus braços para o alto,
gritando, flamejando,
idiotas!
Flamejamos todos os dias, e até mesmo gritamos por socorro,
é, todos os dias!
Todos os dias. Ninguém ouve.
Então queimem em silêncio, esse é o destino demarcador de deus,
deus que observa seres humanos gritando com seus braços para o alto todos os dias,
deus está rindo.
enquanto você está chorando, ah, com certeza, deus está rindo.
Já pensou nisso?
Serzinhos, reflexos de Sóis em janelas, amores que enlouquecem.
Vamos rir, reflexo de noite de amor que tive, vamos rir,
porque deus está rindo.
A gargalhada ecoa em cada manhã, em cada orvalho, em cada respiração das pessoas das nossas famílias,
em cada elo invisível, em cada joaninha, em cada pedaço de ar que é a nuvem.
Em cada radiação que é o Sol. Em cada página do meu livro.