Tento sempre ser sincera nas coisas que eu posto aqui (mesmo que eu não poste nada)
Meus dias têm sido cansativos, chatos, sem emoção, sem nada, cinza e bege, algumas das cores mais chatas. Geralmente chove ou garoa, e o meu cabelo estraga, meu cabelo que eu tingi mas que está insistindo em voltar a ser ruivo. Uso o moletom laranja do uniforme porque não é nem muito quente, nem muito frio. É ideal. Quando folgo três dias seguidos, como agora (folguei domingo, segunda, e hoje, terça), é como tirar férias a cada quinze dias. Me orgulho de ter passado o tempo todo jogada em casa, usando a calça esfarrapada de mendigo que a minha mãe insiste em querer jogar fora, só jogando no computador e, quando alguém me pede pra deixar o computador, jogando no DS. Aliás esse DS foi minha melhor aquisição. Já terminei de pagar. Minha bunda fica dolorida de ficar tanto tempo no computador, mas e daí? E daí?
Ultimamente eu sou só trabalho. E quando folgo assim eu digo pra mim mesma "preciso sair todos os dias. É minha folga, não posso ficar em casa." Ainda mais porque várias pessoas já me disseram que eu não arrumo um namorado porque quase não saio. Mas ficar em casa é maravilhoso. É lindo. Minha casa é meu abrigo, aqui dentro não chove, aqui dentro não tem nenhum Lucas, nenhum Victor, nenhum Du, nem nenhum desses meus recentemente adquiridos amigos-homens que me frustram porque eu não pego nenhum deles, não tem os clientes pervertidos e cheios de ameaças do trabalho, não tem os chefes desmiolados filhos da puta do trabalho. Tem só eu, minha mãe, meus periquitos, meu irmão. Ou seja, as pessoas que eu mais amo (tirando alguns amigos, que eu amo demais também).
Chegar em casa naquele dia foi como mergulhar numa piscina quentinha e aconchegante. Voltei pro meu útero, meu refúgio, meu ponto cômodo. Meu moletom laranja cheirava a cachorro, mas só na minha cabeça, porque ninguém mais tinha sentido o cheiro de cachorro em mim, só eu sentia, ou percebia, ou pensava que sentia. Meu cabelo mais do que estragado, porque, apesar do resfriado, eu tinha pego chuva o dia inteiro. Prendi com um grampo de uma colega, aliás, preciso devolver. Tudo cheirava a cachorro. Meu pulso direito tinha marcas dos dentes junto com um semi-hematoma. Minha mão esquerda ardia onde o cachorro tinha mordiscado, também. E eu sabia, sabia, que naquele moletom haviam as marcas das patas sujas, encardidas, podres, de pêlos emaranhados pela vida na rua, dele. Aquele cachorro preto.
Eu me sentia podre. Me sentia totalmente esmurrada pela vida. Mas não emocionalmente, era uma coisa mais física, e eu sempre digo, desde os meus 15 anos, qualquer dor física é suportável. As piores dores são as do coração. Eu estava podre. Cheguei em casa andando como zumba, mulher zumbi (miolos). Meu nariz escorria, eu tinha acessos de espirros a cada meia hora, eu me sentia feder, por causa do cachorro. Joguei a mochila em cima do sofá, meu irmão estava no computador, nem lembro se ele abriu a porta pra mim ou não. Já tinha decidido no caminho, dentro do ônibus, que tomaria banho. Tomei banho e lavei a cabeça, e dentro do banho, eu acordei. Saí de lá sabendo quem eu era e onde eu estava.
O cachorro me marcou. Eu só queria espantá-lo (no Sesc não entram cachorros. Eu só queria que ele me seguisse pra longe dali) mas ele grudou em mim, ele começou a morder minhas mãos, a pular na minha perna, a fazer coisas extremamente constrangedoras. Eu tentava controlá-lo à la O Encantador de Cães, dando uns chutinhos e tapas nele, mas o filho da puta não desgrudava de mim. Ele insistia, e pulava, e mordia, brincando, feliz da vida, como se a chuva, o meu resfriado, o meu coração quebrado, ah, cara, ele não via nada disso. Eu era só uma perna. E ele, tão diferente dos outros cachorros que eu já conheci. Ele queria dizer alguma coisa. Ele me queria, de alguma forma, prestando atenção só nele. Então uma moça passou e disse
"Olha, o cachorro cismou com a moça!"
Eu já não sabia mais o que fazer com aquele cachorro lindo, velho, esfrangalhado de rua. Então, já sei, vou atravessar a rua e, com sorte, algum carro atropela ele. Nada, atravessamos, eu e meu cachorro preto, meu sabujo caçador, meu Lassie preto vagabundo, atravessamos. Cheguei na porta do mercado que tem em frente ao Sesc. Entrei, olhei pra trás. Fachada verde, tinta verde, tapete verde, e o cachorro ficou lá. Eu apontei e disse, triunfante "HAHA, aqui você não entra!"
Aquele cachorro era uma metáfora. Ele existiu, esteve lá, sujou minhas roupas, deixou um hematoma no meu pulso, mas foi tão efêmero quanto o dia que eu passei com o Lucas. Como diz aquela música do She & Him, a música mais linda deles (http://www.youtube.com/watch?v=BfCBJR55GYE): "I somehow see what's beautiful in things that are ephemeral."
Foi o que foi e acabou. Eu vou ver aquele cachorro de vez em quando ou talvez todos os dias, mas deus, eu espero que ele não se lembre mais de mim, nunca mais.
terça-feira, 22 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
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