quarta-feira, 8 de abril de 2009

este é meu último post neste blog. o que ele significou para mim foi uma espécie de libertação, foi um modo de me expressar como eu há muito tempo não fazia. mas isso foi também, em parte, a bandeira da minha perda de identidade. talvez eu tenha só posto para fora o que eu sinto de verdade, mas saiba que tenho sofrido o suficiente nestes últimos dois meses. por compaixão por alguém que é a pessoa mais parecida comigo que eu já conheci, quis me tornar, me esforcei, talvez até me tornei a pessoa mais parecida com ele, me perdi. por compaixão, e também por egoísmo meu, que sou extremamente carente. se você não entender isso, não tem problema, eu mesma não entendo.

mas encerro isto por aqui. não posso voltar atrás, eu sei que não. sinto muita saudade dele, penso nele todos os dias. e vou sofrer por mais algum tempo, mas tenho que seguir em frente. decidi que vou viver por mim mesma e pelas pessoas que eu amo. vou viver por amor a mim mesma, e não pela esperança de ser amada, porque na verdade eu já sou.

não vou perder minha capacidade de amar, percebi que posso me apaixonar até por uma pedra, por qualquer pessoa do mundo, até um tipinho nojento ou uma mulher. sou capaz de amar, sem ver meu corpo, vendo só o branco de mim, o contorno da minha alma. e vou até o fim. é quem eu sou. vou viver por quem eu sou.

ainda assim, admito que a saudade é imensa, e me fez chorar de um jeito que eu nunca tinha chorado antes, um choro que parecia eu desesperadamente tentando tirar alguma coisa amarela, avermelhada, quente, de lá de dentro de mim, mas não saiu, então chorei. é isso. vou fazer o máximo para não escrever mais aqui. adeus. mil beijos de despedida. adeus.

seiva

ele vem de um plano distante. está sempre do outro lado. ele vem, e nós vamos nos conhecer, e vamos olhar um para o outro; e saberemos. saberemos que vai dar certo. eu saberei que vai ser diferente. ele vem, ele vem. vai segurar a minha mão e acariciar meus cabelos, dedilhando cada cacho, como eu sempre quis que alguém fizesse. vamos sentar lado a lado, sair juntos, andar de mãos dadas pelo parque. vou beijá-lo suavemente, vou fazer tudo devagar, vou amá-lo sem silêncio, não vou fugir e não vou chorar. sentir o rosto dele nas minhas mãos, sentir as mãos dele em mim. e depois, depois de tudo, nós vamos nos cansar de amor e vamos dizer tudo. ele vai sentar ao meu lado. sim, vai segurar a minha mão. vou segurar a dele. ele vem. ele vem. preciso acreditar que ele vem. estou vazia. preciso acreditar. porque sou a pessoa mais vazia do mundo. as lágrimas nunca secam, eu sempre tenho mais para derramar. preciso acreditar, meu amor, que você vem. mas não acredito. não acredito. não acredito. não acredito. não acredito. não tenho mais nada. estou vazia. quero chorar. estou vazia. não acredito. vida, volta para mim. onde foi que eu me perdi. onde você está. estou revoltada, estou sozinha, e onde você está? não acredito mais. ele vem. não, não, ele não vem. e eu sei disso. eu não acredito. dói muito. mas o que dói é um nada. como um vazio pode doer. o meu dói. o meu dói muito, o meu vazio dói, o meu vazio pesa e derrete como lava, e me corrói e desce de mim até o centro da Terra, e leva uma parte pesada de mim junto, e eu fico aqui, tentando alcançar lá, e dói muito, essa saudade, essa lava queimando, esse peso. ele não vem nunca, esse maldito, meu amado, meu querido, meu ausente. ele não vem e eu estou morrendo. estou me desfazendo, estou pegando fogo, estou queimando como pinga queima, me transformo no oxigênio, chego ao céu e depois caio de novo, pois me desfaço como lava. esperando por ele. ele, que nem me conhece, ou talvez conheça, eu não o conheço; ele nunca vem. e nunca saberemos. e nunca viveremos todos os meus sonhos. nunca. nada. ele não vem. não tenho palavras para descrever o grande fim que está aqui dentro. não encontro palavras. é um vazio pesado, é um fim esvaziado. é a minha morte. é a minha vida. é meu fardo. é minha mentira. é meu desejo enorme e carregado de amar, amar, amar. é minha saudade enorme. é o meu pensar todos os dias nele. meu martírio, minha tortura. ele não vem. ele não veio. ele nunca virá. acabou. meu fim. meu devaneio, meus dedos, meus olhos, meu cabelo, cada fio de mim, cada pedacinho se desfaz e se solta, e voa e volta e queima e morre. todos os dias. sem ele. ele não vem. estou esperando. vem. vem. vem. vem.

sábado, 4 de abril de 2009

PÁVIDA

Descobri que estou grávida.
Grávida de mim mesma.
O meu sangue não vem já faz um mês.
Estou grávida, portanto.
De mim mesma.

Vou parir o novo messias.
Ainda se meu nome fosse Maria.
Vou até sair no jornal,
em grandes letras pretas.
Vou jorrar um filho.

Um clone de mim.
Talvez até dois, e vou poder ir às lojas de bebês,
e comprar todas aquelas coisinhas interessantes,
e minha barriga vai crescer,
e depois de nove meses,
um clone de mim.

Minha vida vai fazer sentido.
Vou nutrir e crescer,
e amamentar, e cuidar.
De alguém mais que não eu, clone, bebê.
Vou saber o que é ser mãe,
e vai bastar.

Sentir algo crescer nas minhas entranhas,
mágico, não saber nem de onde veio.
Vou gritar para o mundo que os modos atuais de concepção são mentiras,
que é possível engravidar de si mesma.
Letras, rostos, olhos, cores, tudo vai sair de mim.
Sangue, e veias, e tecido, e homens, tudo vai sair de mim.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Existem Sóis artificiais.
Você olha pela janela, então vê uma nuvem.
Então vê um Sol, mas olha, ele está se mexendo.
O Sol não se mexe, o Sol nunca se mexe.
Mas você pode fingir,
me deixa brincar com isso.
É um sol artificial, que dança entre as nuvens,
e qualquer dia desses,
ah,
qualquer dia desses,
ele vai colidir diretamente com você,
diretamente com a sua cabeça.

Existem também bons momentos.
Você passa um mês dedicando sentimentos, então eles vão embora.
Então você os deixa ir, mas quando percebe, não importa mais.
E você percebe que ninguém nunca esteve realmente lá.
Mas você pode fingir,
ah, e você certamente fingiu.
São sentimentos artificiais, ou talvez verdadeiros,
que passam,
vão,
e ainda bem,
passam.
E levam um pedaço sangrento da gente.

Existem também pequenas minhocas.
Você anda e então vê uma minhoca no vão entre duas lajotas do chão sujo da cidade.
Então você pára, você pára seu dia, você pára seu caminho.
A minhoca rasteja, e faz tanto tempo que você não vê uma minhoca.
Mas você de repente a ama,
e a observa, um doido que pára seu caminho para observar um serzinho.
É uma minhoca, uma metáfora do seu passado de menino,
e você sorri,
porque ama a minhoca,
a terra te chama de volta,
serzinho.
Pequeno lembrete de que o passado existe, e não existem fardos, existem gravames de imagens, e seguimos o caminho.

Existem pessoas, muitas pessoas.
Você achou muitas pessoas e pensou que, meu deus, elas eram todas iguais!
Então, elas são mesmo todas iguais.
Sua cabeça mergulhada num livro.
Não levanta mais a cabeça para as pessoas todas iguais.
Você sabe que ele não estará lá,
daí sua cabeça mergulhada num livro.
Seja como for,
as pessoas são todas iguais.
E seus dias seguem como formigas, um após o outro,
vamos viver,
vamos viver, pelo amor de deus,
viver pelo menos por um segundo,
nem que em seguida a Terra seja engolida por labaredas,
e a cena estranhamente engraçada de seres humanos correndo com seus braços para o alto,
gritando, flamejando,
idiotas!
Flamejamos todos os dias, e até mesmo gritamos por socorro,
é, todos os dias!
Todos os dias. Ninguém ouve.
Então queimem em silêncio, esse é o destino demarcador de deus,
deus que observa seres humanos gritando com seus braços para o alto todos os dias,
deus está rindo.
enquanto você está chorando, ah, com certeza, deus está rindo.
Já pensou nisso?
Serzinhos, reflexos de Sóis em janelas, amores que enlouquecem.
Vamos rir, reflexo de noite de amor que tive, vamos rir,
porque deus está rindo.
A gargalhada ecoa em cada manhã, em cada orvalho, em cada respiração das pessoas das nossas famílias,
em cada elo invisível, em cada joaninha, em cada pedaço de ar que é a nuvem.
Em cada radiação que é o Sol. Em cada página do meu livro.

quinta-feira, 26 de março de 2009

stitches

sou como aquela parte do livro, quantas baratas já me foram oferecidas? eu recusei todas por medo. tenho medo, medo até de olhar pela janela.

então acabou. nada muda. o céu através do arame farpado da minha horta. o céu é tão profundamente azul quanto o do fundo da sua alma. as mãos, as mãos, as adoradas mãos que eu observo e tomo como ponto. perdi meu ponto. costurei coisas dentro do meu coração. as mãos nunca vêm. as mãos são sempre dos outros. nunca são minhas. mãos que nunca me invadem. sangro até morrer. cometo suicídio. não tenho mais nada de poético, tenho só um bolo de entranhas na barriga, entranhas que se reviram e se prendem e me dão vontade de desidratar chorando, implorando para voltar, implorando para você vir, meu ausente, onde você se enfiou? quando você vier, vou estar com tanto ódio que vou morrer. estou morrendo, por isso estou cheia de dores ultimamente.

você não percebeu? é óbvio que estou morrendo, essa é a parte mais verdadeira de mim. e todos eles encontraram alguém, e eu vou ficando para trás, e até gostaria de apostar corrida, mas vou perder. sou uma perdedora. é assim que eu me sinto, é minha parte mais morta e verdadeira, é a parte minha que não enxerga, nem olha, nem faz nada. morta, morta. morta. quero você. quero e quero, e não quero. isso me faz rir, é patético.

não sou vítima de nada. se fiquei sozinha, foi porque eu quis. eu vejo isso claramente. não sou a pobre coitadinha idiota, sou uma filha da puta que só sabe reclamar. é culpa minha. não sou vítima. sou culpada. encontraram meu corpo num terreno baldio, mas fui eu mesma quem segurou a faca e deu os tiros e colheu o veneno. isso é suícidio. por isso é culpa minha, vou para o inferno quando morrer, e vou virgem.

foda-se tudo. te odeio e me odeio. vou morrer. tudo morre. todos morrem. tenho medo de não sei o quê. por medo perdi minha vida e puxei o gatilho. foda-se você por não ter sido o que eu queria. foda-se eu por ter permitido. foda-se e a vida segue em frente. a merda da vida segue, não posso fazer nada. vou chegar aos 30 e morrer. foda-se o mundo. vou ficar sozinha porque quero. porque quero. e você só pode olhar.

somos todos uns filhos da puta, gosmentos e porcos e mentirosos e sujos, e lindos. o mundo é tão grande, e a internet é outra porcaria que só dificulta as coisas, e que tudo se exploda. venham os aliens, venha a bomba atômica, o apocalipse de mim, o dilúvio de sangue. quero engravidar e parir mil filhos e morrer sangrando porque dei à luz demais. quero morrer de excesso de vida e de morte. quero você, quero ter seus filhos, todos eles. quero você, sua árvore genealógica. foda-se tudo.

foda-se. foda-se. coisa. fim. vida sem amor não é vida. me privei disso e é culpa minha. só me resta sofrer. morrer. ah, fim, fim, vem, fim.

sexta-feira, 20 de março de 2009

colosso

pleno, vivo, morno.
me senti como se tivesse algo hoje.
uma coisa.
eu sou minha própria coisa.
e sou plena, viva, morna.
sim, me senti plena.
senti como se tivesse algo, me olhei no espelho e falei.
sou minha.
sou minha própria coisa.
sinto muito a falta dele, mas gosto de coisas remendadas.
sinto, sim, gosto, admito, admiti, e eu já disse que gosto de admitir.
sou minha falta, sou um ponto, sou minha virada, sou.
mas sinto falta.
sinto falta daquilo de pensar, putz, eu não sou a única.
e agora ouço essa música.
essa música, dedico a ele.
eles.
dá para dedicar a ele, mas não se dedica uma coisa que não é sua, que não foi você quem fez.
não se dedica, não.
sou um pássaro, sou um vento, sou tudo.
sou o céu, o céu é meu, é o mesmo que o seu.
eu sou eu, eu sou seu.
eu sou minha.
minha falta.
penso, olho o céu, a vida diária me faz feliz, e infeliz.
mas de repente penso, saio da vida diária, penso nele, penso muito.
e penso que sou minha própria coisa.
pronto, uma coisa inesperada, uma coisa engraçada.
alguém que te responde boa tarde às nove horas da manhã.
e me sinto plena, feliz, e viva.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
não tenho mais nada a dizer, a não ser que o amei.
mesmo sem ele, eu o amei.
eu o amei.
eu o quis.
eu o aceitei.
mesmo sem ele.
eu sou eu.
eu me aceitei.
travesseiro, volta, travesseiro, me dá voltas.
querido remendado.
não tenho nada.
perco o fio todo da minha meada.
fio solto, que ninguém segue, fio roxo.
novelo que nunca acaba.
meu querido, eu o amei.
não o chamo de querido, ah, nunca chamarei, não, nunca.
nunca.
mas mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
mesmo sem ele.
nunca tive ele.
sempre estive mesmo sem ele.
então sem ele.
sem ele, sem ninguém.
só comigo.
estou comigo.
sou minha própria coisa.
e existo.
e respiro.
e sou eu.
e afeto, dedico,
dedico porque é meu,
dedico a alguém,
alguém que é meu,
dedico a mim meu afeto,
porque é meu,
e só se dedicam as coisas que são suas.
só se dedicam a alguém essas coisas que são suas.
meu afeto é meu.
dedico a mim.
é meu duplamente, meu duas vezes.
vou repetir, mesmo sem ele.
chega de duas vezes.
sou toda eu. plenamente eu.
afeto, eu.
afeto.

quinta-feira, 12 de março de 2009

identidade

não sei, mas acho que não quero mais. acho que só sei reclamar por estar sozinha, mas no fundo, não quero nada com ninguém. eu sinto que, se me relacionasse com alguém, se ficasse com alguém ou arrumasse um namorado ou coisa que fosse, não seria mais eu. e por deixar de ser eu, seria feliz? poderia recuperar nas entranhas de mim aquele aspecto que me fazia olhar para mim mesma e dizer que eu era eu? parece que eu complico demais as coisas e fujo demais, também. mas é como eu me sinto. não sei te explicar exatamente, mas é como eu me sinto, e talvez eu deva parar de reclamar e aceitar as coisas como estão agora. talvez eu queira ser criança para sempre. talvez a coisa pela qual eu mais esteja desejando nos últimos anos seja só uma fantasia, um carrossel, um algodão apetitoso na mão dos outros, aquele algodão-doce que você quer muito, mas quando prova, sente-se enjoado. o algodão-doce da perda da identidade. perder quem eu sou. às custas de quê? quero morrer sozinha. vou parar de mentir para mim mesma e dizer a verdade: quero ficar sozinha. tenho fugido dessa verdade, mas agora eu vejo. quaisquer relacionamentos iminentes me assustam, e eu prefiro meu cantinho cômodo e úmido, onde eu sou feliz. sou acomodada, sim, não sou aventureira, sou um gato caseiro que come e dorme o dia inteiro. só quero uma coisa da minha vida agora: estudar. o resto, desculpe pela falta de palavra melhor, que se foda. por favor, não quero nada. o que fazer agora que eu não quero mais? fugir. a palavra é fugir. vou fugir, como eu sempre faço, porque não quero, não quero, desesperadamente, mil vezes, NÃO QUERO perder quem eu sou. e não acho que sou a única a pensar assim no mundo. gosto de admitir.

você pode pensar que eu sou hipócrita, e que eu estou mentindo para mim mesma, eu, sinceramente, penso que isso vai passar, mas não quero que passe. não tinha reparado nisso, é meio novo para mim, admitir que aquela porta trancada dentro de mim quer continuar trancada. me conformei, pronto. vou ficar onde estou. não quero ninguém. mesmo que venha alguém, nunca é o suficiente para mim, e não quero fazer ninguém sofrer, acima de tudo, não quero me fazer sofrer. então acabou. dou adeus definitivo ao navio no porto, sou a esposa chorosa acenando com um lenço, sou a garrafa de vidro quebrada no casco, sou a fumaça que sai, sou as gaivotas piando, voando, pousando, sou as lajotas do cais, sou o marinheiro que perdeu o barco, sou tudo, menos o navio. não estou dentro do navio. queimei meu passaporte. vou ficar para sempre sentada aqui, parada aqui. porque não quero deixar de ser eu. porque não quero ter que passar por todas as etapas que precedem a felicidade, o que eu realmente quero, fazendo do que eu quero impossível. posso estar morrendo. meu coração é um pedaço de gelo polar. meu coração é uma redoma de vinte camadas de vidro com nada dentro. ou meu coração é um vazio. já imaginou um oco dentro do seu peito, imaginou mesmo? nada entre os seus pulmões, seu sangue se bombeando sozinho? deixei meu coração lá atrás, naquela rua da minha vida de sarjeta, dentro do bueiro, e meu peito secou e cicatrizou e hoje sou feliz sem coração. obrigada.

quinta-feira, 5 de março de 2009

7

só tenho escrito merda aqui, vou dar um tempo, to sem inspiração que preste.

quarta-feira, 4 de março de 2009

pontas de dó na voz, sorte sua, eu sorrio.
obrigada por se importar comigo, obrigada por tentar junto comigo.
sou a prova mais viva, a mais viva das vivas,
de que uma pessoa pode ser privada,
privada da vida,
do amor,
das noites,
os abraços,
de um coração transbordante.

RECUSO

não sei, talvez ele esteja me estendendo a mão
talvez eu esteja desesperadamente estendendo a minha mão para o primeiro que passar
como um mendigo
e agora, esmola querida?
quem mandou estender a mão?
quem mandou segurar aquela mão e soltar logo em seguida?

com tantas ao redor dele, sozinha, eu, quem se importa?
ninguém quer esse coração de mendigo
aquela mão que você vê estendida na sua direção,
aquele olhar desorientado, bêbado, sujo
aquilo sou eu
sou eu, e te peço esmola
sou uma vergonha, sou um desastre
olhe para o outro lado,
é um mendigo
ele pode te atacar, ele fede
é um mendigo, é um mendigo
vergonha dele, vergonha por ele
some, mendigo
mendigo não-querido, mendigo inquerido
tombado em um canto, recusando esmolas, gorjetas, sem ninguém
sem dinheiro, sem amor
mendigo, some, mendigo

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Só capturo momentos, e ninguém me interessa. As pessoas na rua são sempre iguais. Me encosto no banco. Adoro os bancos desses mini-ônibus, esses que ficam no cantinho, sozinhos, virados de frente para todos os outros. Fecho os olhos. Não quero mais ver pessoas desinteressantes, sempre as mesmas todos os dias. Quero saber como essas pessoas vivem. Como elas conseguem. Eu disse para ela ontem, isso é uma coisa que eu não entendo desde os meus catorze anos. Como as pessoas se conhecem? Como as coisas acontecem entre elas? Não entendo. Como um desconhecido se interessa por você e as coisas simplesmente acontecem? Não tem essa de simplesmente. Ultimamente tenho tentado reunir pensamentos de homens a respeito de mulheres em geral. Nunca tinha parado para pensar nisso, mas li que o que os homens sentem, em sentido romântico, é sempre mais forte do que o que as mulheres sentem. E que eles são "injustiçados", pois cabe a eles o passo inicial, cabe a eles o julgamento, e cabe às mulheres a decisão. A decisão é sempre da mulher, foi o que eu li. É verdade, de certa forma. Mas vi homens mais desiludidos com a vida, li o que eles disseram e fiquei extremamente impressionada, admito. O que eles falavam que sentiam, essa coisa de não conseguir encontrar ninguém e já ter perdido completamente as esperanças, uma revolta interna que podia ser lida perfeitamente nas entrelinhas, é exatamente o que eu sinto. Até mais forte. Me pergunto se eles se indignam mais por estarem sozinhos. Com certeza, sim. Alguns parecem odiar as mulheres. Dizem que hoje em dia elas só querem saber dos cafajestes, dos safados, dos "bombadões", e os supostos românticos (por que usei a palavra "supostos" aqui?) são taxados de coisas como "só grandes amigos", até mesmo homossexuais. Onde estão essas putas desses mulheres? Essas desgraçadas, que estragam tudo para nós? Quero matar todas elas. Rejeitar uma pessoa decente por uma que te faz sofrer e é mais atraente? Elas acabam com tudo. Por causa dessa maioria de mulheres filhas da puta (a revolta faz a gente falar palavrões), a minoria é vítima de preconceito, e nesse jogo de argumentação para ver qual sexo é o mais preconceituoso, sujo, criminoso, as mulheres sempre parecem perder (na argumentação. Em todos os pequenos debates que eu li, as mulheres perdiam os argumentos, e mais homens se juntavam ao grupo de homens, até que só sobrassem homens na conversa, como se as mulheres tivessem desistido). Mas na verdade, é a mesma coisa dos dois lados. A maioria das mulheres, pelo menos aqui no Brasil, é um bando de idiotas, nojentinhas, sujas, que dão para o primeiro que aparecer na esquina e só sabem dançar com a bunda de fora. A maioria dos homens, pelo menos pelo que eu vejo, é de safados, estranhos, extremamente burros, sem caráter, como as mulheres, a única diferença é que eles não engravidam, então quando a transa toda dá em merda, eles fogem e as mulheres largam as crianças com as avós para irem dançar no baile funk, e começa tudo de novo. Por isso que eu acho que nasci 1. na época errada 2. no país errado. Como é que alguém pode ser feliz e encontrar uma pessoa com quem tenha afinidades no meio dessa bosta toda? É como chapinhar na lama para encontrar um alfinete, mais sujo que um palheiro. Ainda mais quando você mora num bairro mais pobre, tem um emprego que é aquela coisa de "é um trabalho sujo, mas alguém tem de fazê-lo", as coisas ficam difíceis, eu te digo. Não é nenhum milagre eu não ter encontrado nenhum homem que fosse REALMENTE interessante. Não, não encontrei, e não tenho esperanças de encontrar. Li também o depoimento de uma quarentona dizendo que vê muitas pessoas jovens sem esperanças, apesar de terem a vida toda pela frente. Ela não sabe que, quando se é assim (jovem e já sem esperança), as pessoas fazem o favor de te repetir sempre a mesma coisa ("você tem a vida inteira pela frente", "calma que um dia uma pessoa vai chegar e vai mover o seu coração de certa maneira que blá blá blá") e essas coisas não fazem mais o mínimo sentido, e por mais que você tente, não consegue, e não consegue explicar. Acredito que existam pessoas como eu por aí, sim, mas onde elas estão se escondendo, não me pergunte. E se algum dia eu encontrar realmente alguém que seja o suficiente para mim, coisa que até agora eu não vi mesmo, não vai acontecer nada, porque eu me escondo, não olho e não faço nada. Mas, é basicamente isso, corações solitários talvez sejam feitos para ficarem sozinhos, porque têm uma missão maior a cumprir nesse mundo. Talvez as pessoas fiquem sozinhas porque simplesmente não vieram para cá para namorar, transar, ser feliz no amor e essas coisas. Um propósito maior. Me agarro nisso, gosto de acreditar que tenho um propósito maior. Eu espero. Não sou muito inteligente, não tenho convicções profundas, não tenho nada de especial, mas não quero ser como todo mundo. Não sou uma mulher como aquelas putas, não sou, e leio essas coisas por aí e fico pensando em como adoraria dar amor para um homem como aquele. Fazê-lo feliz, fazê-lo mudar de idéia. Quero amar, mas acho que estou sendo hipócrita. Quero ser amada. Não sinto que sou isso realmente, não me vejo tão egoísta assim, mas sei que essa é a natureza do ser humano: o egoísmo. Analisando as palavras "eu te amo". É uma frase egoísta ao extremo. EU te amo. EU. Tudo é EU, EU, EU. As pessoas por aí quando dizem eu te amo estão dizendo isso somente da parte delas. Não dizem eu te amo pensando que quando a pessoa ouvir, vai pensar "puta merda, eu sou amado". Dizem porque querem, porque acham bonito, porque acham que devem dizer. Egoístas do caramba.

Bom, são só algumas reflexões. Interessante escrever essas coisas. Penso bastante em coisas como essas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

leia

Leia cada frase separada. Cada frase nasce separada. Fale alto. Pronuncie cada coisa, cada pensamento. Leia cada vida separada. Frases nascem separadas. Nós juntamos, mas nascem separadas. Uma frase nasce sozinha. Matamos em nossas mentes, pouco a pouco. Descartam-se frases. Vendem-se frases. Leia cada frase separada. Separadas, elas se gravam mais facilmente. As pessoas. Frases e pessoas separadas. Desfaça um texto. Separe seu próprio texto. Esmigalhe. Junte. Separe novamente. Faça sentido. Não faça, seja humano. Leia todas, descarte todas. Fique com uma. Então sinta. Pergunte-se. Sinta-se. Troque. Encontre outra. Faça a sua. Então, pergunte-se novamente. E lembre-se de ler cada frase, cada palavra, cada vírgula, cada refrão, cada soneto, cada estrofe, cada verso, cada sussurro, cada respiração, cada descompasso, cada toque. Segure. Solte. Segure novamente. Abrace. O mais forte possível. Isso é seu. Não se desespere. Sentimentos nascem. Seguem. Mão-única. Separadamente.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

é assim

Certas coisas são impossíveis. Ondas no mar. Sentada na areia, ela se perguntava a respeito de tudo. A origem das coisas, a essência mais essencial das coisas. O porquê das coisas acontecerem. Toda vez que pensava nisso, chegava à conclusão de que certas coisas são impossíveis e não têm explicação. Os dias pareciam tão longos naquela época. Não poderia esperar mais nada de ninguém, não poderia mais esperar por ele, ou vê-lo todos os dias. Ele quem? Ela achava engraçado como confundia os nomes dos homens por quem já se apaixonara, dentro de sua cabeça. Chegava a usar três nomes até acertar o certo.

Observava novamente as ondas do mar. Tão naturais. Para ela nada era natural, nada parecia acontecer com suavidade. Ultimamente, ela tinha se conformado, e pensava que, se estava naquela situação já há tanto tempo, não havia mais necessidade de se preocupar, pois provavelmente merecia aquilo. Sim, provavelmente merecia. Ela pegou um punhado de areia, observou a textura e a cor, e lentamente deixou sua mão pender para o lado, deixando a areia escapar. Olhou ao redor. Areia até onde a vista alcança. Deixar escapar só aquele punhado não ia fazer nenhum mal. Haviam mais milhões e milhões de grãos, só naquela praia.

Mesmo assim, ela não acreditava que fosse encontrar nada ali. Somente a beleza do mar, que não era dela. Ela não é uma estranha, mas somente observa, de longe, desejando que a vida fosse boa com ela também, e lhe desse um pouco de felicidade. Não queria muito. Seu coração estava conformado em só observar. Se revoltava às vezes, mas ela não chorava mais. Aqueles dias longos em que ela estivera apaixonada tantas vezes, aqueles dias sempre lhe trouxeram lágrimas e sofrimento.

Ela tinha sua vida normal de volta, e apesar de continuar sozinha, não chorava mais. Ela se levantou. Andou até as escadas de madeira. Olhou para trás, seus pés descalços sentindo a areia suave. O mar era maravilhoso. Mas não era para ela. Conformou-se. Subiu as escadas e foi para casa. Era final de tarde.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

vinho e cigarras

vinho sangrento, cor de cigarras
o som das cigarras e o vinho sangrento
nada a ver com nada
ressaca de sentimentos

sangria, cigarras
é como meu pai há muito tempo me disse
quando as cigarras fazem tanto barulho,
é porque estão para morrer

mas não ouço mais as cigarras
sangria de cigarras, som de sangria
não ouço mais minhas cigarras
há muito tempo já não as ouço mais

did you mean to?

me olhei no espelho, olhei meus olhos, meus cabelos, meu rosto, meu dedos, meus cílios, meu nariz, minha boca.
levei a mão ao peito.
olhei para mim e disse
e disse, e pensei
levei a mão ao peito,
pensei
"não tem nada lá dentro"

corra, corra, corra

com sono e vergonha, quero piano. quero chá, quero campo. quero mãos, quero noite. com sono e vergonha. quero limão, quero praia. desculpa. des-culpe-me, tire a minha culpa. culpa. polpa. despolpe-me. a culpa é parte de mim

longe demais

let's go holiday

sábado, 14 de fevereiro de 2009

sente-se hoje

sei lá.
não sou como as outras pessoas.
que tiveram um amor aos dezessete anos.

um rapaz não tão bonito, mas bonito aos olhos dela.
um rapaz que cantou uma última canção de despedida,
um rapaz que ela nunca mais viu.

uma moça que apareceu do nada em sua vida, na escola.
uma moça que disse que gostava dele também,
uma moça que ele nunca mais viu.

não tive nada disso.
não sei explicar porquê.
sinto muita dor.
vivem me dizendo que tudo tem sua hora.
que até agora não aconteceu porque eu não conheci a pessoa certa.
que beijar é mais fácil que andar de bicicleta.
meu deus, quanta besteira.
nem sei andar de bicicleta.
escrevi demais
estou cheia hoje,
eu acho

passos

Andando pela rua, sempre me pergunto para onde e o porque estou indo. Meu deus, que vontade de voltar para trás. Voltar para casa. Ando muito assim ultimamente. Quase paro. Ando devagar. Sozinha. Penso, vou voltar. Vejo meus pés e a calçada cinza, tudo cinza, e quero muito voltar. Olho para a frente e me sinto tragada pelos meus próprios pés, malditos traidores de mim. Meus olhos se enchem de lágrimas, eu me sinto explodir por dentro. Sinto que poderia sentar no chão e chorar, fazer escândalo, me jogar na frente de um carro. Lágrimas, então tudo o que eu vejo são lágrimas, e não ligo de não enxergar nada na minha frente, porque não quero ir pra frente, mesmo.

Tudo embaça e desfoca, só vejo luzes brilhantes. Não posso chorar. Sempre banco a idiota. Não gosto de segurar o choro, mas sempre seguro. Tudo me pega, tudo me transforma, a paisagem me bate e me machuca, me chuta, me enlouquece de dor, de dor, de lágrimas. Quero voltar para casa. Mas eu sei que se eu voltar, não saio mais. E morro. Quero morrer. E choro porque quero morrer, e porque quero voltar e não volto.

Quantas vezes já fiz isso? Quantas vezes cheguei na esquina e me senti fazer a curva de volta para dentro. Dentro da minha rua, dentro de um lugar que é meu, mas que não é o suficiente. Ninguém acha feio. Ninguém acha bonito. Ninguém diz nada. Eu quero voltar, e quase choro. Sujo tudo, sujo minha vida, não quero pensar assim, quero ir para a frente. Não desejei por isso, e desejei com todas as minhas fibras, com cada pedacinho meu.









Querer voltar para casa no meio do caminho representa muitas coisas para mim. Representa fracasso. Fracasso total, infelicidade. Vida morta. Murcha. Solta. Fim.

virtudes

um quadro pintado pela metade
o resto em branco
gramado, paisagem, nuvens no céu
só até a metade
a outra metade, só riscada
a lápis ou a carvão
borrado, num canto
o quadro aguarda, parado, aguarda
o pincel de seu pintor

mas o pintor não vem, não veio, não chega
o quadro abandonado
se rasga e se pinta
de lágrimas, lápis, tinta velha e carvão
corrói, apodrece, envelhece e fica
sempre se perguntando, o quadro
até que o tempo, os rasgos, suas eternas lágrimas, água sofrida
tragam a morte
então o pintor saberá de seu quadro
agora no lixo, sujo e rasgado
sua bela paisagem pintada em forma de choro
uma única palavra se lê, em preto, em dores
"sempre"
em dores.
"desafiem a vocês mesmos."

de olhos arregalados.
ela bebeu cada palavra.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

I'm awake and feel the ache

não quero, não quero, não quero. não quero dormir, porque não quero que amanhã chegue, porque não quero acordar amanhã.

ah, a merda que é um dia após o outro.

forte, fortitude, fortaleza

tempo bom, tempo ruim
é tempo ruim lá fora
é tempo de ser forte
é tempo de ser chuva, de resistir
ainda sou forte?
ainda é tempo?
não me sinto mais tão forte
é tempo de ser relâmpago, efêmero, de desistir
não tenho mais tempo
esgotei-me
meu tempo se esgotou
escorreu pelas minhas mãos
e agora eu não sei mais ser forte
quando devo ser
só sei chorar
é tempo de voltar a ser menina
menina forte, que não chora
mas minha alma foi se quebrando com o tempo
agora só sei chorar
é tempo ruim aqui dentro
é tempo ruim lá fora, também
é tempo de ser forte,
e eu desaprendi a ser forte,
e não consigo ter forças sequer para ser forte,
pois algo dentro de mim perdeu tudo,
algo dentro de mim, uma parte, um pedaço rasgado de mim,
não quer mais ser forte
uma parte de mim, uma grande parte de mim
só quer deitar e dormir, e desaparecer
é tempo de desaparecer,
mas devo ser forte,
devo ser forte?
devo ser forte para quê?
para quê
para ser forte
é preciso ser forte
e eu não sou forte
se disser que sou,
estou mentindo
pois não sou
já fui
forte
fui
forte

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

tradução de To America

É certo, meu amor, é certo?
É uma pergunta sem resposta.
Eu tenho certeza de que quero estar no mar aberto,
Sentir o conforto da espuma em meu rosto.
Não, não estou chorando.

É certo, meu amor, é certo?
Você está feliz dentro de seus olhos?
Você não vê sua amante
se desfazer em suas linhas de seda.
No tempo certo o caçador encontrará o rastro de sangue.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

califórnia

FRASE DO DIA, de hoje e de ontem:
Cada um tem o que merece. (frase hipócrita)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

seis

eu não escrevo quando eu estou bem.
a solidão é a minha única inspiração.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

estrangeiro

Vai voltar, o pássaro, depois de queimar o ninho. Ele queimou seu próprio ninho. Com um pio triste, como se de repente acordasse para a vida, o pássaro olhou ao seu redor. Registrou cada cor daquele fogo, e o ninho, e o ninho? Ele queimou seu próprio ninho. O pássaro se pergunta, terá sido intenção sua? Terá sido seu instinto animal? O pássaro não se sente mais animal. O pássaro, que é pássaro, quer meios de ser pássaro. Surge algo em seu peito de ave frágil. Seu coração bate forte. Medo, medo. O ninho está queimando. O ninho está queimando. O medo vem, mas o pássaro só olha simplesmente. Pânico não é para pássaros. E o calor do fogo dá prazer, é quente. Ainda assim, ele tem medo. Medo, porque queimou seu próprio ninho! O pássaro frágil, seu ninho frágil. Ele não quer o ninho de volta, mas não sabe porque queimou. Aquele ninho que ele construiu durante tantos meses, buscando alimentar uma família, alimentando uma esperança maravilhosa. Sabe, esperança de pássaro.

O pássaro olha. E agora, o que fazer? O pássaro não sabe. Sua almazinha está inquieta, mas ele não se move. O pássaro se resigna. Foi a morte de seu ninho. O fogo, é real? O medo do fogo, é real? Mas o que tem de mais nesse tal fogo? Pássaro e fogo. Combinariam. O fogo é natural, assim como ele, o pássaro. O fogo está se sentindo observado. Quem o ateou, o pássaro, agora observa. Pássaro, engula o fogo. O pássaro olha os reflexos de seu fogo. Coraçãozinho. Ambos esperam. Ambos chegam mais perto, desejo, desejo de conhecer um ao outro. Pássaro e fogo. O fogo, lambendo as penas do pássaro, o pássaro num júbilo de indecência sentindo prazer dentro do fogo. Se entregam, pássaro e fogo. Duas coisas naturais. O ninho já queimou. Não há mais nada para o pássaro, a não ser buscar o fogo. Não há mais nada para o fogo, exceto querer o pássaro.

sozinha, sozinha, alarme viva

let's make it clear
let's make it clear
let's make it clear
let's make it clear
let's make it clear
let's make it clear
let's make it, dear

domingo, 1 de fevereiro de 2009

esse instrumento que eu adoro mas não sei o nome

eu vivo minha vida perdendo as esperanças quase todo dia.
ninguém, não pode ser e não existe, ninguém tem um coração tão desoladamente vazio quanto o meu.
como é que pode? o que as outras pessoas têm que eu não tenho?
ninguém tem um coração tão vazio, tão assustadoramente vazio, se você abrir, olhar lá dentro e gritar, você só vai ver escuridão e ouvir ecos.
é de dar medo, como uma pessoa por fora pode parecer alegre e ter tudo que as outras têm, mas por dentro ecoa e chora sem parar?
não sei como ninguém percebe que eu tenho um coração tão vazio, tão murchinho, acuado num canto, esperando numa fila.
pobrezinho do meu coração.
ninguém é tão vazio quanto ele. eu o mimo, eu o amo, mas não adianta.
meu coraçãozinho querido. nada adianta para você, não é?
ninguém tem um coração tão querido, tão desoladamente, assustadoramente, terrivelmente, sombriamente vazio, tão sofrido, tão amargo, tão triste quanto o meu.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

luzes e flores

desfaz seu quebra-cabeças
abre a porta, vem, acende as luzes
as flores do vaso apodreceram, murcharam e secaram
abre a janela, deixa tudo aberto
cansa de pensar em tudo, eu já parei de pensar
ocupa o sofá, toma uma cadeira
senta e me olha, senta e demora
segura a minha mão, passa os seus dedos entre os meus
toma o que é seu, por direito seu
abre o livro, aperta a campainha
olha pra mim daquele jeito, você está fazendo de novo
faz de novo, tudo isso que eu gosto que você faz
você está fazendo de novo
e de novo
tudo aquilo que eu gosto que você faz

trilhos

Estava parada na beira da plataforma, observando a parede à sua frente. Esperando aquele barulho começar.

you're a rock with a heart

Plantar flores, regar flores
Pegar pedaços de papel colorido, encher as mãos
Andar na névoa rosada, respirar
Comer algodão-doce, ver fogos no céu

Ver alguém casando, casar de vermelho
Dar voltas no mundo, conhecer todos os mares e cidades
Deitar na neve, desenhar palavras no ar
Olhar o céu, chorar de emoção

Chorar no ombro de alguém, ser o ombro de alguém
Aproveitar o vento, tirar a roupa
Mergulhar, tentar a felicidade
Bagunçar o cabelo de alguém, aprender a dar carinho

Como será abraçar alguém tão apertado que você sente o coração da outra pessoa batendo?
Põe as esperanças no armário

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ela realmente quer você

Tentando, tentando, tentando, tentando, tentando, tentando. Se você repetir a mesma palavra várias vezes, ela perde o sentido. Qualquer palavra.

Por que tanto medo? Se ninguém é de ninguém. Medo de que alguém tire algo de você? Só existe um jeito de roubarem seu coração.

De que adianta viver quando se perde a vontade? De onde vem toda essa dor? O que a gente faz quando sente tanta saudade de uma coisa, mas não quer voltar para ela?

O que eu faço? O que eu faço? Desperdício. Eu não sei mais o que eu faço. Eu me perdi no caminho, quando fiz aquele desvio lá atrás. Minha trilha não é mais de terra. As placas sumiram, se é que alguma dia estiveram lá. Meu cabelo estragado, tudo encharcado. O que eu faço?

É um campo de batalha. Eu sou o inimigo. Não existem inimigos na guerra, só interesses, interesses diferentes. Isso não é guerra, mas parece guerra para mim. Não é guerra, eu sei que eu não preciso fazer disso uma guerra, mas eu não tenho mais esperanças. E a verdade é que eu nunca consigo fazer guerra. Não sei lutar. Sempre desisto no meio do caminho. Sou fraca, sou uma imprestável, inútil, estou cansada e com sono, cheia de lama, tentei lutar, desisti e perdi todas as vezes. Todas as vezes.

Agora eu estou andando sozinha. Eu sempre estou andando sozinha. Desde quando começaram a me cobrar isso? Ou será que sou eu mesma quem faço as cobranças? Eu sinto um peso enorme nas minhas costas, é um monstro, um monstro grande que finca as garras nas minhas costas, e sussurra no meu ouvido "Você fez alguma coisa errada. Mas não sou eu quem vai te contar o que foi exatamente que você fez"

Não sei mais o que fazer. Vou fazer o que eu sempre fiz: continuar andando. Chorar, só se for escondido.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

cheiro

às vezes sinto um cheiro que não é bem um cheiro
vem direto, com o vento
sinto com as pontas dos meus dedos, esse cheiro
delicadamente, devagar, toco cada partícula do cheiro
e ele, o cheiro, sabe que sendo tocado, também me toca
me invade devagar, o cheiro sabe, o invadido, invasor
que eu amo o cheiro
sim, o cheiro sabe
certamente sabe
eu sinto o cheiro usando amor como sentido

al, al, al

quero ir para o campo, viver um amor desses de matagal
de botas e de lama, de terra e de mato, ardente e casual

quero ir para o campo e pôr nossas roupas no varal
pintá-las de vermelho e verde, de estranho e de anormal

acalorar o amor de matagal
fazê-lo feliz, dizer baixinho que tudo nele é natural
se não fosse, não seria o meu amor de quintal
impossível, amor, e casual

domingo, 25 de janeiro de 2009

o mar, feist

it's making the waves wave
illumination, this is how my heart behaves

a cold heart will burst if mistrusted first
and a calm heart will break if given a shake
how her heart behaves
the rain rain making me cry
how her heart behaves
then the wind comes fanning my yellow eye
how her heart behaves
the waves wave the waves wave
how her heart behaves
this is how my heart behaves

a cold heart will burst
if mistrusted first
a calm heart will break
when given a shake

geladeira

entrei na geladeira
entrei no mundo
entrei, a geladeira era amarela
entrei na dor
entrei no frio
entrei, quis ficar doente
entrei no sonho
entrei com alguém
entrei, fiquei doente
entrei porque quis
entrei porque quis
entrei, feliz

sobre mentiras, agora

Fico imaginando o porquê de mentir. Pra soar engraçado. Boa parte das coisas que eu conto, às vezes, é mentira. Por que mentir? Soar engraçado. Fazer os outros rirem. Mas é muito melhor quando eu falo alguma verdade realmente engraçada. Detesto mentir, mas quando vejo, já menti. É mentira, mas nunca vou admitir a verdade. A verdade por trás da verdade (por trás da mentira) também me soa como uma mentira, e não uma engraçada. É só substituir, então. Mentir é fácil, mas muito mais fácil pra mim cara a cara. Não entendo, eu sempre pensei que eu mentisse mal, mas tem vezes que eu minto mal e vezes que eu minto bem. Tem certas verdades que eu tenho orgulho de contar. São verdades tristes e terríveis, mas eu conto, pra que os outros tenham dó de mim. Nunca admiti isso tão abertamente. Eu sou uma pessoa horrível, não sou? A gente não presta atenção nesses defeitos até sentar e pensar sobre eles. Mentir é horrível. Eu tenho que parar de mentir. Não sei como aconteceu, quando eu comecei, mas faz pouco tempo. Quando ninguém te conhece e tudo é mais ou menos novo, a gente se permite mentir por umas risadas. Já decidi, vou parar. Mais ou menos como fumar, só que mais fácil. Que besteira, eu nunca fumei. Mas já menti. Mas vou parar.

sobre ciúmes

vou escrever sobre meus ciúmes.
porque todos dizem que é uma coisa ruim ter ciúmes.
ciúmes é uma palavra estranha.
eu tenho ciúmes de tudo, aprendi a disfarçar.
ciúmes da minha mãe, das minhas canetas.
talvez eu seja possessiva.
mas ninguém tem ciúmes de mim.

eu tenho ciúmes de gente que eu nem conheço direito.
isso é uma coisa ruim, isso de ter ciúmes.
eu disfarço, mas por dentro xingo.
um dos meus defeitos é ter ciúmes.
já tive ciúmes do meu irmão, dos meus bichos.
só tenho ciúmes das coisas que gosto.
talvez eu goste demais das coisas, é isso.

ciúmes, refletidos no fundo dos meus olhos,
que se fecham, e latejam.
os pensamentos borbulham.
de que adianta ter ciúmes?
não se pode ter ciúmes do que não é seu.
se não é seu, não se pode ter ciúmes.
se não se tem ciúmes, não é seu.
posso chamar essas pessoas de minhas, então?

meus ciúmes, só o que falta é eu ter ciúmes dos meus ciúmes.
um dia talvez eu mude o foco da minha terapia,
e diga "sim, eu tenho ciúmes",
porque sentir ciúmes é uma coisa ruim,
ainda mais quando se tem ciúmes do que não é seu.
mas ninguém percebe que eu tenho ciúmes.
é, eu aprendi a disfarçar.
ciúmes sem propósito são, simplesmente, ciúmes.

sábado, 24 de janeiro de 2009

a praia

- Boa viagem.
- Obrigada.
- Já arrumou as malas?
- Praticamente.
- Pra onde, mesmo?
- Praia. Praia. Já falei.
- Ah tá. Você tá levando a máquina?
- É lógico.
- Ah.
- Que cara é essa?
- Você me conhece.
- Você queria ir junto, certo.
- Não é bem isso.
- É, sim, eu te conheço.
- Mas mesmo que eu queira, eu não vou. Não é assim que funciona?
- Você se esquece de que a gente não tem mais nada...
- Eu sei.
- Então pronto. Tô indo...
- Espera.
- Quê?
- Leva as chaves.
- Ah tá. Obrigada, eu tava esquecendo.
- Vou sentir saudades.
- Vou admitir que eu também.
- ...
- Não fala nada.
- Eu te conheço.
- É o suficiente. Se você disser aquilo, é bem capaz que eu fique.
- Quando você voltar, tudo vai ter acabado, mesmo, né?
- Vai, sim. A verdade é que é por isso que eu tô indo.
- Entendi.
- Eu tô me sentindo péssima.
- Por quê?
- Ah, dane-se. Eu tô indo. Tchau.
- Tchau.
e saiu pela porta.

meu sorvete e a rua deserta

fica. vai, fica, dá uma chance.
filha, não despreza o sentimento dos outros.
anota, fala com ele.
se dê uma chance.
olha, eu te digo uma coisa, não existe coisa pior do que ficar com alguém sem querer ficar.
mas eu vou sair com ele só como amigo.
dá uma chance.
não gosto dele.
não faz meu tipo.
mas eu já fiquei com tanta gente que não fazia o meu tipo, dá uma chance, vai, menina.
não quero.
de repente quero.
sou carente.
tudo mudou num fim de semana.
mas eu ainda acho que ele é meio... ridículo.
dá uma chance.
dou.
pego a bolsa, detestei aquele dia.
a placa verde, eu não deveria estar aqui.
não tem mais volta.
desce, tudo parece vazio agora, lembrando.
sento.
espero.
compro um sorvete.
sento.
espero.
o telefone toca.
alô, nome.
é a solidão.
esquece, esquece.
depois a gente conversa, tchau.
furo.
aconteceu de novo.
terminal, de novo.
ônibus de volta.
em casa, xingo.
mamãe fica do meu lado.
pronto, acabou.
foi assim.

arco-íris cinza

trabalho, e é final de tarde
saio, me intrometo na avenida
a vida é bela, mas tudo acabou mais uma vez
o céu azul, e choveu

atravesso a rua, lajotas sujas, poças d'água, alguém derrubou a placa da rua
à direita, o caminhão
o caminhão e o arco-íris

o que foi aquilo? coisa da minha cabeça voadora
não foi, não foi, foi a água, o sol, a tarde, a luz
eu vi um arco-íris,
eu juro que eu vi
e foi culpa do caminhão, o caminhão, o ser urbano, sujo, detestável
me fez ver o arco-íris
me fez pensar que eu sou louca
me fez sorrir, porque a vida é bela
apesar de tudo acabar mais uma vez
eu vi, eu vi

eu não sei flertar

é que eu sou criança. a palavra flertar me lembra flor, eu não sei flertar, eu só sei amar. ou sabia. vou tentar escrever aqui tudo o que eu tenho sentido ultimamente. a vida se manifestou e declarou pra mim a minha solidão. eu sonhei com um peso enorme, maciço, esmagando os meus pulmões. eu senti tudo esmagar, eu tentei segurar meu coração, mas era um peso enorme. uma coisa de ferro grande, e eu juro que senti, como se eu estivesse deitada na minha cama, antes de acordar, no escuro, eu e o ferro. foi uma manifestação, pronto, acabou, agora é certo, eu estou sozinha. é como se tudo acabasse, escrever isso é como ter um deja vu, minha cabeça idiota. eu não preciso mais de terapia, porque eu pensei que o problema fosse eu, mas quando eu tentei fazer tudo diferente, entende, deu tudo errado do mesmo jeito. eu fiquei imaginando se não existe um fantasma que me ama e não deixa mais ninguém se aproximar. porque não é culpa minha (e eu penso que isso sou eu negando a verdade a mim mesma, porque a culpa muito provavelmente é minha, sim) e a minha mania é não escutar o meu coração. eu faço tudo ao contrário, se imagino alguma coisa, faço de propósito porque nada que eu imagino acontece, se evito imaginar, é porque eu quero que aconteça. eu tenho medo dessas coisas, eu me confundo. e o mais engraçado é que eu pensei que fosse ficar depressiva, a velha fossa eterna de antigamente, mas não fico mais. de manhã eu choro, de tarde eu já sorrio. o que aconteceu comigo? eu tenho dezoito anos, ou mil e trezentos? eu me sinto tão velha às vezes, e tão nova ao mesmo tempo. eu sou uma boba. uma criançona. minhas amigas têm dó de mim. porque eu sou sozinha. é sempre engraçado ver os queixos caírem, os olhos se arregalarem quando eu conto as coisas. eu odeio as pessoas. principalmente quando elas têm dezesseis anos. eu me sinto tão velha, porque eu sou nova, e não sei flertar. meu tempo passou.

saudades da paulista

tenho saudades da paulista,
dos carros poucos, logo de manhã
dos crimes da augusta,
do azul-escuro do meu ônibus,
de sair de madrugada,
de atravessar a rua,
olhar pro alto, bem pro alto, que prédio alto

tenho saudades daqueles dias,
daquele dia, naquela música triste que até hoje me faz chorar se eu não tomar cuidado
esquina da bela cintra, árvore na ponta, passagem estreita
eu paro e deixo passar na minha frente aquela multidão de três pessoas
uma delas, você
ainda lembro do seu rosto na penumbra, de manhã,
na esquina da bela cintra

tenho saudades de você e de mim naqueles dias
quando eu entendi tudo já era tarde
e eu sabia que não teria coragem, e nem pretendia
o problema foi que você também não teve
mais tarde ela veio, a garota de lakeville
ela me contou, e eu soube
te desprezei até o último dia, que foi hoje

vovô vai morrer

minha avó veio em casa
trouxe as coisas quebradas
meu avô consertou tudo

minha avó veio em casa
eu estava trabalhando
meu avô ficou no carro

minha avó veio e disse
que meu avô vai morrer
"a qualquer momento, o telefone vai tocar, e vocês vão saber"

vovó, que coisa horrível de se dizer.

o sangue e o branco

eu nunca passei tanta dor na minha vida. minha mãe não segurou a minha mão. eu lembro que o médico me disse: "por quê você veio de branco? quem mandou você ficar assim?" e eu ouvi como "você é a pessoa mais burra do mundo." me expor, deitar naquela maca branca, minha blusa branca, a dor, e a dor. a tesoura e a agulha, o não enxergar minha pior operação. puxa, aperta, puxa, o que eu fiz para merecer? as lágrimas escorrem, mas nenhum pio da minha parte. não, eu sou forte, eu sou forte, eu sou forte. médico idiota, dor, dor, dor. o sangue, o algodão-sangue, o metálico frio, duro, metálico, o ferro, o forte. "lave três vezes por dia, com água quente e sabão." claro, doutor, obrigada, adeus, tchau, acabou. corredor, amarelo, luz, mamãe. os táxis lá fora, as pessoas olhando, mãe, chama o táxi que eu não aguento voltar de ônibus. drenou, saiu, foi, mas dói, dói. eu não sou forte, mãe, eu estou sozinha. eu sou sozinha, eu nasci sozinha, eu estou sozinha. eu nunca passei tanta dor na minha vida, e aquela blusa branca eu nunca mais usei. blusa ridícula, ficou manchada de sangue. e parecia que o meu cabelo ficou encharcado de sangue, eu lembro do cheiro de cigarro na minha roupa. mamãe fuma. mamãe me abraça. as lágrimas escorrem, por que eu, por que eu? o que eu fiz pra merecer? eu estou sozinha, mãe. dói demais, demais, eu fui humilhada por um homem de branco, algodões e bactérias. não chora dentro do táxi, o que o motorista vai pensar. eu rio então, um sorriso triste, sofrido, tremido. sozinha.

faz passar, eu nunca passei tanta dor na minha vida.

estar só

estar só é:

uma arte
um ardor
depois de um tempo, uma vantagem
depois de um tempo, um costume
depois de um tempo, um buraco
viajar sem bagagem
faltar um pedaço
teatro
doer
não querer mais nada
chorar
não fazer sentido
querer morrer
ter esperanças
quebrar a cara
perder as esperanças
escrever tudo torto
brigar com os amigos
morrer aos poucos
não conseguir
desistir
tentar de novo
desistir mais uma vez
empedrecer

dias de primavera

essa é uma das coisas mais ridículas que eu já escrevi, e também uma das mais bonitas. o amor inspira a gente, pena que, pra pessoas como eu, nunca dá certo


O amor é como aquele tom de amarelo que pega nas folhas das árvores às vezes, principalmente de manhã, e para mim o amor é também como um dia de primavera. Um daqueles dias em que faz sol mas bate um vento que faz a gente se sentir perfeito. E dá pra gente reparar melhor no céu, porque ele fica limpo e azul, mas o calor não é insuportável como nos outros dias. É por isso que eu acho que eu prefiro a primavera do que o inverno, pelo menos em São Paulo. Porque aqui na verdade nunca faz frio mesmo, ou chove, ou esquenta. E eu até gosto da chuva, mas do lado de fora. Chuva me lembra muitas coisas, algumas que eu gostaria de esquecer, como o vermelho do meu guarda-chuva naquele dia. Eu chorei tanto naquele dia. Mas sinceramente, os dias de primavera são tão melhores que os de chuva, e tão mais raros. Eu adoro os dias de primavera. Olhar pro céu e sentir os meus olhos doerem e se encherem de água. Eu sorrio o tempo todo agora, e as pessoas talvez pensem que eu sou louca, mas eu não consigo evitar. Isso e fechar os olhos. Eles fecham sozinhos quando eu penso em certas coisas. Eu nunca me senti assim antes na minha vida. Eu estou muito feliz. Eu nunca fui tão feliz. Eu não sabia amar. O amor é simples como as coisas que se vê, como os dias de primavera, que simplesmente são ou acontecem, e você escolhe gostar deles ou não; é exatamente assim que o amor é.

sete, oito e nove, sobre os quatro

eu não poderia ser mais clara a respeito
seus olhos não paravam de me seguir
você não era o suficiente e eu também não
então por que nós não ficamos juntos?
se você aparecesse de novo, se me dissesse oi
eu me esconderia, fingiria que você não foi nada pra mim

eu tentei 7, 8 e 9,
eu tentei com você, ele e ele também,
não foi o suficiente, então eu posso me culpar
por dizer a verdade e por escolher pessoas como se elas fossem os feijões ruins do pacote

a areia, o plástico, a carta e o ônibus
o que eles significaram para nós?
você mentiria hoje se me visse, você me beijaria como eu sonhei que faríamos?
você me trairia e me diria que eu entendi tudo errado?
você queimaria a carta na minha frente e me veria morrer de novo?
você me daria aquele olhar e me diria que me quer de volta de algum jeito?

eu fugi, você mentiu, eu estava errada e você fugiu
onde estão todos vocês agora? as galinhas e as folhas e as escadas

e as piscinas invisíveis
eles não podem me dizer
você poderia me beijar mas teria que nascer com um rosto melhor pra isso acontecer
você poderia me trair mas você já traiu, então eu não acreditaria em você, mesmo
você poderia queimar a maldita carta, eu iria rir de tudo
você poderia me beijar, eu pediria pra que você por favor não cuspisse mais no chão

tons amarelos

é como aquele tom de amarelo que pega nas folhas
e como a escada entra na piscina que eu não posso ver
é como eles fazem por aí
ou então foi o que me disseram

eu não sei se você está confortável agora,
mas eu não estou, eu acho que não
eu ainda penso em você às vezes
não é ridículo? não é?
e quanto a você? você pensa?

é como as galinhas dizem coisas estranhas durante a noite,
e como o horizonte dessa porcaria de cidade fica fora de foco, seco e cinza
é assim que eu quero que a minha vida seja
ou então foi isso que eu tentei dizer a mim mesma naquele dia

eu não sei se estou confortável agora,
mas algo me faz pensar que estou
eu sinto a falta de um monte de coisas,
não é ridículo? eu acho besta
e quanto a você? você é?