desfaz seu quebra-cabeças
abre a porta, vem, acende as luzes
as flores do vaso apodreceram, murcharam e secaram
abre a janela, deixa tudo aberto
cansa de pensar em tudo, eu já parei de pensar
ocupa o sofá, toma uma cadeira
senta e me olha, senta e demora
segura a minha mão, passa os seus dedos entre os meus
toma o que é seu, por direito seu
abre o livro, aperta a campainha
olha pra mim daquele jeito, você está fazendo de novo
faz de novo, tudo isso que eu gosto que você faz
você está fazendo de novo
e de novo
tudo aquilo que eu gosto que você faz
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
trilhos
Estava parada na beira da plataforma, observando a parede à sua frente. Esperando aquele barulho começar.
you're a rock with a heart
Plantar flores, regar flores
Pegar pedaços de papel colorido, encher as mãos
Andar na névoa rosada, respirar
Comer algodão-doce, ver fogos no céu
Ver alguém casando, casar de vermelho
Dar voltas no mundo, conhecer todos os mares e cidades
Deitar na neve, desenhar palavras no ar
Olhar o céu, chorar de emoção
Chorar no ombro de alguém, ser o ombro de alguém
Aproveitar o vento, tirar a roupa
Mergulhar, tentar a felicidade
Bagunçar o cabelo de alguém, aprender a dar carinho
Como será abraçar alguém tão apertado que você sente o coração da outra pessoa batendo?
Põe as esperanças no armário
Pegar pedaços de papel colorido, encher as mãos
Andar na névoa rosada, respirar
Comer algodão-doce, ver fogos no céu
Ver alguém casando, casar de vermelho
Dar voltas no mundo, conhecer todos os mares e cidades
Deitar na neve, desenhar palavras no ar
Olhar o céu, chorar de emoção
Chorar no ombro de alguém, ser o ombro de alguém
Aproveitar o vento, tirar a roupa
Mergulhar, tentar a felicidade
Bagunçar o cabelo de alguém, aprender a dar carinho
Como será abraçar alguém tão apertado que você sente o coração da outra pessoa batendo?
Põe as esperanças no armário
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
ela realmente quer você
Tentando, tentando, tentando, tentando, tentando, tentando. Se você repetir a mesma palavra várias vezes, ela perde o sentido. Qualquer palavra.
Por que tanto medo? Se ninguém é de ninguém. Medo de que alguém tire algo de você? Só existe um jeito de roubarem seu coração.
De que adianta viver quando se perde a vontade? De onde vem toda essa dor? O que a gente faz quando sente tanta saudade de uma coisa, mas não quer voltar para ela?
O que eu faço? O que eu faço? Desperdício. Eu não sei mais o que eu faço. Eu me perdi no caminho, quando fiz aquele desvio lá atrás. Minha trilha não é mais de terra. As placas sumiram, se é que alguma dia estiveram lá. Meu cabelo estragado, tudo encharcado. O que eu faço?
É um campo de batalha. Eu sou o inimigo. Não existem inimigos na guerra, só interesses, interesses diferentes. Isso não é guerra, mas parece guerra para mim. Não é guerra, eu sei que eu não preciso fazer disso uma guerra, mas eu não tenho mais esperanças. E a verdade é que eu nunca consigo fazer guerra. Não sei lutar. Sempre desisto no meio do caminho. Sou fraca, sou uma imprestável, inútil, estou cansada e com sono, cheia de lama, tentei lutar, desisti e perdi todas as vezes. Todas as vezes.
Agora eu estou andando sozinha. Eu sempre estou andando sozinha. Desde quando começaram a me cobrar isso? Ou será que sou eu mesma quem faço as cobranças? Eu sinto um peso enorme nas minhas costas, é um monstro, um monstro grande que finca as garras nas minhas costas, e sussurra no meu ouvido "Você fez alguma coisa errada. Mas não sou eu quem vai te contar o que foi exatamente que você fez"
Não sei mais o que fazer. Vou fazer o que eu sempre fiz: continuar andando. Chorar, só se for escondido.
Por que tanto medo? Se ninguém é de ninguém. Medo de que alguém tire algo de você? Só existe um jeito de roubarem seu coração.
De que adianta viver quando se perde a vontade? De onde vem toda essa dor? O que a gente faz quando sente tanta saudade de uma coisa, mas não quer voltar para ela?
O que eu faço? O que eu faço? Desperdício. Eu não sei mais o que eu faço. Eu me perdi no caminho, quando fiz aquele desvio lá atrás. Minha trilha não é mais de terra. As placas sumiram, se é que alguma dia estiveram lá. Meu cabelo estragado, tudo encharcado. O que eu faço?
É um campo de batalha. Eu sou o inimigo. Não existem inimigos na guerra, só interesses, interesses diferentes. Isso não é guerra, mas parece guerra para mim. Não é guerra, eu sei que eu não preciso fazer disso uma guerra, mas eu não tenho mais esperanças. E a verdade é que eu nunca consigo fazer guerra. Não sei lutar. Sempre desisto no meio do caminho. Sou fraca, sou uma imprestável, inútil, estou cansada e com sono, cheia de lama, tentei lutar, desisti e perdi todas as vezes. Todas as vezes.
Agora eu estou andando sozinha. Eu sempre estou andando sozinha. Desde quando começaram a me cobrar isso? Ou será que sou eu mesma quem faço as cobranças? Eu sinto um peso enorme nas minhas costas, é um monstro, um monstro grande que finca as garras nas minhas costas, e sussurra no meu ouvido "Você fez alguma coisa errada. Mas não sou eu quem vai te contar o que foi exatamente que você fez"
Não sei mais o que fazer. Vou fazer o que eu sempre fiz: continuar andando. Chorar, só se for escondido.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
cheiro
às vezes sinto um cheiro que não é bem um cheiro
vem direto, com o vento
sinto com as pontas dos meus dedos, esse cheiro
delicadamente, devagar, toco cada partícula do cheiro
e ele, o cheiro, sabe que sendo tocado, também me toca
me invade devagar, o cheiro sabe, o invadido, invasor
que eu amo o cheiro
sim, o cheiro sabe
certamente sabe
eu sinto o cheiro usando amor como sentido
vem direto, com o vento
sinto com as pontas dos meus dedos, esse cheiro
delicadamente, devagar, toco cada partícula do cheiro
e ele, o cheiro, sabe que sendo tocado, também me toca
me invade devagar, o cheiro sabe, o invadido, invasor
que eu amo o cheiro
sim, o cheiro sabe
certamente sabe
eu sinto o cheiro usando amor como sentido
al, al, al
quero ir para o campo, viver um amor desses de matagal
de botas e de lama, de terra e de mato, ardente e casual
quero ir para o campo e pôr nossas roupas no varal
pintá-las de vermelho e verde, de estranho e de anormal
acalorar o amor de matagal
fazê-lo feliz, dizer baixinho que tudo nele é natural
se não fosse, não seria o meu amor de quintal
impossível, amor, e casual
de botas e de lama, de terra e de mato, ardente e casual
quero ir para o campo e pôr nossas roupas no varal
pintá-las de vermelho e verde, de estranho e de anormal
acalorar o amor de matagal
fazê-lo feliz, dizer baixinho que tudo nele é natural
se não fosse, não seria o meu amor de quintal
impossível, amor, e casual
domingo, 25 de janeiro de 2009
o mar, feist
it's making the waves wave
illumination, this is how my heart behaves
a cold heart will burst if mistrusted first
and a calm heart will break if given a shake
how her heart behaves
the rain rain making me cry
how her heart behaves
then the wind comes fanning my yellow eye
how her heart behaves
the waves wave the waves wave
how her heart behaves
this is how my heart behaves
a cold heart will burst
if mistrusted first
a calm heart will break
when given a shake
illumination, this is how my heart behaves
a cold heart will burst if mistrusted first
and a calm heart will break if given a shake
how her heart behaves
the rain rain making me cry
how her heart behaves
then the wind comes fanning my yellow eye
how her heart behaves
the waves wave the waves wave
how her heart behaves
this is how my heart behaves
a cold heart will burst
if mistrusted first
a calm heart will break
when given a shake
geladeira
entrei na geladeira
entrei no mundo
entrei, a geladeira era amarela
entrei na dor
entrei no frio
entrei, quis ficar doente
entrei no sonho
entrei com alguém
entrei, fiquei doente
entrei porque quis
entrei porque quis
entrei, feliz
entrei no mundo
entrei, a geladeira era amarela
entrei na dor
entrei no frio
entrei, quis ficar doente
entrei no sonho
entrei com alguém
entrei, fiquei doente
entrei porque quis
entrei porque quis
entrei, feliz
sobre mentiras, agora
Fico imaginando o porquê de mentir. Pra soar engraçado. Boa parte das coisas que eu conto, às vezes, é mentira. Por que mentir? Soar engraçado. Fazer os outros rirem. Mas é muito melhor quando eu falo alguma verdade realmente engraçada. Detesto mentir, mas quando vejo, já menti. É mentira, mas nunca vou admitir a verdade. A verdade por trás da verdade (por trás da mentira) também me soa como uma mentira, e não uma engraçada. É só substituir, então. Mentir é fácil, mas muito mais fácil pra mim cara a cara. Não entendo, eu sempre pensei que eu mentisse mal, mas tem vezes que eu minto mal e vezes que eu minto bem. Tem certas verdades que eu tenho orgulho de contar. São verdades tristes e terríveis, mas eu conto, pra que os outros tenham dó de mim. Nunca admiti isso tão abertamente. Eu sou uma pessoa horrível, não sou? A gente não presta atenção nesses defeitos até sentar e pensar sobre eles. Mentir é horrível. Eu tenho que parar de mentir. Não sei como aconteceu, quando eu comecei, mas faz pouco tempo. Quando ninguém te conhece e tudo é mais ou menos novo, a gente se permite mentir por umas risadas. Já decidi, vou parar. Mais ou menos como fumar, só que mais fácil. Que besteira, eu nunca fumei. Mas já menti. Mas vou parar.
sobre ciúmes
vou escrever sobre meus ciúmes.
porque todos dizem que é uma coisa ruim ter ciúmes.
ciúmes é uma palavra estranha.
eu tenho ciúmes de tudo, aprendi a disfarçar.
ciúmes da minha mãe, das minhas canetas.
talvez eu seja possessiva.
mas ninguém tem ciúmes de mim.
eu tenho ciúmes de gente que eu nem conheço direito.
isso é uma coisa ruim, isso de ter ciúmes.
eu disfarço, mas por dentro xingo.
um dos meus defeitos é ter ciúmes.
já tive ciúmes do meu irmão, dos meus bichos.
só tenho ciúmes das coisas que gosto.
talvez eu goste demais das coisas, é isso.
ciúmes, refletidos no fundo dos meus olhos,
que se fecham, e latejam.
os pensamentos borbulham.
de que adianta ter ciúmes?
não se pode ter ciúmes do que não é seu.
se não é seu, não se pode ter ciúmes.
se não se tem ciúmes, não é seu.
posso chamar essas pessoas de minhas, então?
meus ciúmes, só o que falta é eu ter ciúmes dos meus ciúmes.
um dia talvez eu mude o foco da minha terapia,
e diga "sim, eu tenho ciúmes",
porque sentir ciúmes é uma coisa ruim,
ainda mais quando se tem ciúmes do que não é seu.
mas ninguém percebe que eu tenho ciúmes.
é, eu aprendi a disfarçar.
ciúmes sem propósito são, simplesmente, ciúmes.
porque todos dizem que é uma coisa ruim ter ciúmes.
ciúmes é uma palavra estranha.
eu tenho ciúmes de tudo, aprendi a disfarçar.
ciúmes da minha mãe, das minhas canetas.
talvez eu seja possessiva.
mas ninguém tem ciúmes de mim.
eu tenho ciúmes de gente que eu nem conheço direito.
isso é uma coisa ruim, isso de ter ciúmes.
eu disfarço, mas por dentro xingo.
um dos meus defeitos é ter ciúmes.
já tive ciúmes do meu irmão, dos meus bichos.
só tenho ciúmes das coisas que gosto.
talvez eu goste demais das coisas, é isso.
ciúmes, refletidos no fundo dos meus olhos,
que se fecham, e latejam.
os pensamentos borbulham.
de que adianta ter ciúmes?
não se pode ter ciúmes do que não é seu.
se não é seu, não se pode ter ciúmes.
se não se tem ciúmes, não é seu.
posso chamar essas pessoas de minhas, então?
meus ciúmes, só o que falta é eu ter ciúmes dos meus ciúmes.
um dia talvez eu mude o foco da minha terapia,
e diga "sim, eu tenho ciúmes",
porque sentir ciúmes é uma coisa ruim,
ainda mais quando se tem ciúmes do que não é seu.
mas ninguém percebe que eu tenho ciúmes.
é, eu aprendi a disfarçar.
ciúmes sem propósito são, simplesmente, ciúmes.
sábado, 24 de janeiro de 2009
a praia
- Boa viagem.
- Obrigada.
- Já arrumou as malas?
- Praticamente.
- Pra onde, mesmo?
- Praia. Praia. Já falei.
- Ah tá. Você tá levando a máquina?
- É lógico.
- Ah.
- Que cara é essa?
- Você me conhece.
- Você queria ir junto, certo.
- Não é bem isso.
- É, sim, eu te conheço.
- Mas mesmo que eu queira, eu não vou. Não é assim que funciona?
- Você se esquece de que a gente não tem mais nada...
- Eu sei.
- Então pronto. Tô indo...
- Espera.
- Quê?
- Leva as chaves.
- Ah tá. Obrigada, eu tava esquecendo.
- Vou sentir saudades.
- Vou admitir que eu também.
- ...
- Não fala nada.
- Eu te conheço.
- É o suficiente. Se você disser aquilo, é bem capaz que eu fique.
- Quando você voltar, tudo vai ter acabado, mesmo, né?
- Vai, sim. A verdade é que é por isso que eu tô indo.
- Entendi.
- Eu tô me sentindo péssima.
- Por quê?
- Ah, dane-se. Eu tô indo. Tchau.
- Tchau.
e saiu pela porta.
- Obrigada.
- Já arrumou as malas?
- Praticamente.
- Pra onde, mesmo?
- Praia. Praia. Já falei.
- Ah tá. Você tá levando a máquina?
- É lógico.
- Ah.
- Que cara é essa?
- Você me conhece.
- Você queria ir junto, certo.
- Não é bem isso.
- É, sim, eu te conheço.
- Mas mesmo que eu queira, eu não vou. Não é assim que funciona?
- Você se esquece de que a gente não tem mais nada...
- Eu sei.
- Então pronto. Tô indo...
- Espera.
- Quê?
- Leva as chaves.
- Ah tá. Obrigada, eu tava esquecendo.
- Vou sentir saudades.
- Vou admitir que eu também.
- ...
- Não fala nada.
- Eu te conheço.
- É o suficiente. Se você disser aquilo, é bem capaz que eu fique.
- Quando você voltar, tudo vai ter acabado, mesmo, né?
- Vai, sim. A verdade é que é por isso que eu tô indo.
- Entendi.
- Eu tô me sentindo péssima.
- Por quê?
- Ah, dane-se. Eu tô indo. Tchau.
- Tchau.
e saiu pela porta.
meu sorvete e a rua deserta
fica. vai, fica, dá uma chance.
filha, não despreza o sentimento dos outros.
anota, fala com ele.
se dê uma chance.
olha, eu te digo uma coisa, não existe coisa pior do que ficar com alguém sem querer ficar.
mas eu vou sair com ele só como amigo.
dá uma chance.
não gosto dele.
não faz meu tipo.
mas eu já fiquei com tanta gente que não fazia o meu tipo, dá uma chance, vai, menina.
não quero.
de repente quero.
sou carente.
tudo mudou num fim de semana.
mas eu ainda acho que ele é meio... ridículo.
dá uma chance.
dou.
pego a bolsa, detestei aquele dia.
a placa verde, eu não deveria estar aqui.
não tem mais volta.
desce, tudo parece vazio agora, lembrando.
sento.
espero.
compro um sorvete.
sento.
espero.
o telefone toca.
alô, nome.
é a solidão.
esquece, esquece.
depois a gente conversa, tchau.
furo.
aconteceu de novo.
terminal, de novo.
ônibus de volta.
em casa, xingo.
mamãe fica do meu lado.
pronto, acabou.
foi assim.
filha, não despreza o sentimento dos outros.
anota, fala com ele.
se dê uma chance.
olha, eu te digo uma coisa, não existe coisa pior do que ficar com alguém sem querer ficar.
mas eu vou sair com ele só como amigo.
dá uma chance.
não gosto dele.
não faz meu tipo.
mas eu já fiquei com tanta gente que não fazia o meu tipo, dá uma chance, vai, menina.
não quero.
de repente quero.
sou carente.
tudo mudou num fim de semana.
mas eu ainda acho que ele é meio... ridículo.
dá uma chance.
dou.
pego a bolsa, detestei aquele dia.
a placa verde, eu não deveria estar aqui.
não tem mais volta.
desce, tudo parece vazio agora, lembrando.
sento.
espero.
compro um sorvete.
sento.
espero.
o telefone toca.
alô, nome.
é a solidão.
esquece, esquece.
depois a gente conversa, tchau.
furo.
aconteceu de novo.
terminal, de novo.
ônibus de volta.
em casa, xingo.
mamãe fica do meu lado.
pronto, acabou.
foi assim.
arco-íris cinza
trabalho, e é final de tarde
saio, me intrometo na avenida
a vida é bela, mas tudo acabou mais uma vez
o céu azul, e choveu
atravesso a rua, lajotas sujas, poças d'água, alguém derrubou a placa da rua
à direita, o caminhão
o caminhão e o arco-íris
o que foi aquilo? coisa da minha cabeça voadora
não foi, não foi, foi a água, o sol, a tarde, a luz
eu vi um arco-íris,
eu juro que eu vi
e foi culpa do caminhão, o caminhão, o ser urbano, sujo, detestável
me fez ver o arco-íris
me fez pensar que eu sou louca
me fez sorrir, porque a vida é bela
apesar de tudo acabar mais uma vez
eu vi, eu vi
saio, me intrometo na avenida
a vida é bela, mas tudo acabou mais uma vez
o céu azul, e choveu
atravesso a rua, lajotas sujas, poças d'água, alguém derrubou a placa da rua
à direita, o caminhão
o caminhão e o arco-íris
o que foi aquilo? coisa da minha cabeça voadora
não foi, não foi, foi a água, o sol, a tarde, a luz
eu vi um arco-íris,
eu juro que eu vi
e foi culpa do caminhão, o caminhão, o ser urbano, sujo, detestável
me fez ver o arco-íris
me fez pensar que eu sou louca
me fez sorrir, porque a vida é bela
apesar de tudo acabar mais uma vez
eu vi, eu vi
eu não sei flertar
é que eu sou criança. a palavra flertar me lembra flor, eu não sei flertar, eu só sei amar. ou sabia. vou tentar escrever aqui tudo o que eu tenho sentido ultimamente. a vida se manifestou e declarou pra mim a minha solidão. eu sonhei com um peso enorme, maciço, esmagando os meus pulmões. eu senti tudo esmagar, eu tentei segurar meu coração, mas era um peso enorme. uma coisa de ferro grande, e eu juro que senti, como se eu estivesse deitada na minha cama, antes de acordar, no escuro, eu e o ferro. foi uma manifestação, pronto, acabou, agora é certo, eu estou sozinha. é como se tudo acabasse, escrever isso é como ter um deja vu, minha cabeça idiota. eu não preciso mais de terapia, porque eu pensei que o problema fosse eu, mas quando eu tentei fazer tudo diferente, entende, deu tudo errado do mesmo jeito. eu fiquei imaginando se não existe um fantasma que me ama e não deixa mais ninguém se aproximar. porque não é culpa minha (e eu penso que isso sou eu negando a verdade a mim mesma, porque a culpa muito provavelmente é minha, sim) e a minha mania é não escutar o meu coração. eu faço tudo ao contrário, se imagino alguma coisa, faço de propósito porque nada que eu imagino acontece, se evito imaginar, é porque eu quero que aconteça. eu tenho medo dessas coisas, eu me confundo. e o mais engraçado é que eu pensei que fosse ficar depressiva, a velha fossa eterna de antigamente, mas não fico mais. de manhã eu choro, de tarde eu já sorrio. o que aconteceu comigo? eu tenho dezoito anos, ou mil e trezentos? eu me sinto tão velha às vezes, e tão nova ao mesmo tempo. eu sou uma boba. uma criançona. minhas amigas têm dó de mim. porque eu sou sozinha. é sempre engraçado ver os queixos caírem, os olhos se arregalarem quando eu conto as coisas. eu odeio as pessoas. principalmente quando elas têm dezesseis anos. eu me sinto tão velha, porque eu sou nova, e não sei flertar. meu tempo passou.
saudades da paulista
tenho saudades da paulista,
dos carros poucos, logo de manhã
dos crimes da augusta,
do azul-escuro do meu ônibus,
de sair de madrugada,
de atravessar a rua,
olhar pro alto, bem pro alto, que prédio alto
tenho saudades daqueles dias,
daquele dia, naquela música triste que até hoje me faz chorar se eu não tomar cuidado
esquina da bela cintra, árvore na ponta, passagem estreita
eu paro e deixo passar na minha frente aquela multidão de três pessoas
uma delas, você
ainda lembro do seu rosto na penumbra, de manhã,
na esquina da bela cintra
tenho saudades de você e de mim naqueles dias
quando eu entendi tudo já era tarde
e eu sabia que não teria coragem, e nem pretendia
o problema foi que você também não teve
mais tarde ela veio, a garota de lakeville
ela me contou, e eu soube
te desprezei até o último dia, que foi hoje
dos carros poucos, logo de manhã
dos crimes da augusta,
do azul-escuro do meu ônibus,
de sair de madrugada,
de atravessar a rua,
olhar pro alto, bem pro alto, que prédio alto
tenho saudades daqueles dias,
daquele dia, naquela música triste que até hoje me faz chorar se eu não tomar cuidado
esquina da bela cintra, árvore na ponta, passagem estreita
eu paro e deixo passar na minha frente aquela multidão de três pessoas
uma delas, você
ainda lembro do seu rosto na penumbra, de manhã,
na esquina da bela cintra
tenho saudades de você e de mim naqueles dias
quando eu entendi tudo já era tarde
e eu sabia que não teria coragem, e nem pretendia
o problema foi que você também não teve
mais tarde ela veio, a garota de lakeville
ela me contou, e eu soube
te desprezei até o último dia, que foi hoje
vovô vai morrer
minha avó veio em casa
trouxe as coisas quebradas
meu avô consertou tudo
minha avó veio em casa
eu estava trabalhando
meu avô ficou no carro
minha avó veio e disse
que meu avô vai morrer
"a qualquer momento, o telefone vai tocar, e vocês vão saber"
vovó, que coisa horrível de se dizer.
trouxe as coisas quebradas
meu avô consertou tudo
minha avó veio em casa
eu estava trabalhando
meu avô ficou no carro
minha avó veio e disse
que meu avô vai morrer
"a qualquer momento, o telefone vai tocar, e vocês vão saber"
vovó, que coisa horrível de se dizer.
o sangue e o branco
eu nunca passei tanta dor na minha vida. minha mãe não segurou a minha mão. eu lembro que o médico me disse: "por quê você veio de branco? quem mandou você ficar assim?" e eu ouvi como "você é a pessoa mais burra do mundo." me expor, deitar naquela maca branca, minha blusa branca, a dor, e a dor. a tesoura e a agulha, o não enxergar minha pior operação. puxa, aperta, puxa, o que eu fiz para merecer? as lágrimas escorrem, mas nenhum pio da minha parte. não, eu sou forte, eu sou forte, eu sou forte. médico idiota, dor, dor, dor. o sangue, o algodão-sangue, o metálico frio, duro, metálico, o ferro, o forte. "lave três vezes por dia, com água quente e sabão." claro, doutor, obrigada, adeus, tchau, acabou. corredor, amarelo, luz, mamãe. os táxis lá fora, as pessoas olhando, mãe, chama o táxi que eu não aguento voltar de ônibus. drenou, saiu, foi, mas dói, dói. eu não sou forte, mãe, eu estou sozinha. eu sou sozinha, eu nasci sozinha, eu estou sozinha. eu nunca passei tanta dor na minha vida, e aquela blusa branca eu nunca mais usei. blusa ridícula, ficou manchada de sangue. e parecia que o meu cabelo ficou encharcado de sangue, eu lembro do cheiro de cigarro na minha roupa. mamãe fuma. mamãe me abraça. as lágrimas escorrem, por que eu, por que eu? o que eu fiz pra merecer? eu estou sozinha, mãe. dói demais, demais, eu fui humilhada por um homem de branco, algodões e bactérias. não chora dentro do táxi, o que o motorista vai pensar. eu rio então, um sorriso triste, sofrido, tremido. sozinha.
faz passar, eu nunca passei tanta dor na minha vida.
faz passar, eu nunca passei tanta dor na minha vida.
estar só
estar só é:
uma arte
um ardor
depois de um tempo, uma vantagem
depois de um tempo, um costume
depois de um tempo, um buraco
viajar sem bagagem
faltar um pedaço
teatro
doer
não querer mais nada
chorar
não fazer sentido
querer morrer
ter esperanças
quebrar a cara
perder as esperanças
escrever tudo torto
brigar com os amigos
morrer aos poucos
não conseguir
desistir
tentar de novo
desistir mais uma vez
empedrecer
uma arte
um ardor
depois de um tempo, uma vantagem
depois de um tempo, um costume
depois de um tempo, um buraco
viajar sem bagagem
faltar um pedaço
teatro
doer
não querer mais nada
chorar
não fazer sentido
querer morrer
ter esperanças
quebrar a cara
perder as esperanças
escrever tudo torto
brigar com os amigos
morrer aos poucos
não conseguir
desistir
tentar de novo
desistir mais uma vez
empedrecer
dias de primavera
essa é uma das coisas mais ridículas que eu já escrevi, e também uma das mais bonitas. o amor inspira a gente, pena que, pra pessoas como eu, nunca dá certo
O amor é como aquele tom de amarelo que pega nas folhas das árvores às vezes, principalmente de manhã, e para mim o amor é também como um dia de primavera. Um daqueles dias em que faz sol mas bate um vento que faz a gente se sentir perfeito. E dá pra gente reparar melhor no céu, porque ele fica limpo e azul, mas o calor não é insuportável como nos outros dias. É por isso que eu acho que eu prefiro a primavera do que o inverno, pelo menos em São Paulo. Porque aqui na verdade nunca faz frio mesmo, ou chove, ou esquenta. E eu até gosto da chuva, mas do lado de fora. Chuva me lembra muitas coisas, algumas que eu gostaria de esquecer, como o vermelho do meu guarda-chuva naquele dia. Eu chorei tanto naquele dia. Mas sinceramente, os dias de primavera são tão melhores que os de chuva, e tão mais raros. Eu adoro os dias de primavera. Olhar pro céu e sentir os meus olhos doerem e se encherem de água. Eu sorrio o tempo todo agora, e as pessoas talvez pensem que eu sou louca, mas eu não consigo evitar. Isso e fechar os olhos. Eles fecham sozinhos quando eu penso em certas coisas. Eu nunca me senti assim antes na minha vida. Eu estou muito feliz. Eu nunca fui tão feliz. Eu não sabia amar. O amor é simples como as coisas que se vê, como os dias de primavera, que simplesmente são ou acontecem, e você escolhe gostar deles ou não; é exatamente assim que o amor é.
O amor é como aquele tom de amarelo que pega nas folhas das árvores às vezes, principalmente de manhã, e para mim o amor é também como um dia de primavera. Um daqueles dias em que faz sol mas bate um vento que faz a gente se sentir perfeito. E dá pra gente reparar melhor no céu, porque ele fica limpo e azul, mas o calor não é insuportável como nos outros dias. É por isso que eu acho que eu prefiro a primavera do que o inverno, pelo menos em São Paulo. Porque aqui na verdade nunca faz frio mesmo, ou chove, ou esquenta. E eu até gosto da chuva, mas do lado de fora. Chuva me lembra muitas coisas, algumas que eu gostaria de esquecer, como o vermelho do meu guarda-chuva naquele dia. Eu chorei tanto naquele dia. Mas sinceramente, os dias de primavera são tão melhores que os de chuva, e tão mais raros. Eu adoro os dias de primavera. Olhar pro céu e sentir os meus olhos doerem e se encherem de água. Eu sorrio o tempo todo agora, e as pessoas talvez pensem que eu sou louca, mas eu não consigo evitar. Isso e fechar os olhos. Eles fecham sozinhos quando eu penso em certas coisas. Eu nunca me senti assim antes na minha vida. Eu estou muito feliz. Eu nunca fui tão feliz. Eu não sabia amar. O amor é simples como as coisas que se vê, como os dias de primavera, que simplesmente são ou acontecem, e você escolhe gostar deles ou não; é exatamente assim que o amor é.
sete, oito e nove, sobre os quatro
eu não poderia ser mais clara a respeito
seus olhos não paravam de me seguir
você não era o suficiente e eu também não
então por que nós não ficamos juntos?
se você aparecesse de novo, se me dissesse oi
eu me esconderia, fingiria que você não foi nada pra mim
eu tentei 7, 8 e 9,
eu tentei com você, ele e ele também,
não foi o suficiente, então eu posso me culpar
por dizer a verdade e por escolher pessoas como se elas fossem os feijões ruins do pacote
a areia, o plástico, a carta e o ônibus
o que eles significaram para nós?
você mentiria hoje se me visse, você me beijaria como eu sonhei que faríamos?
você me trairia e me diria que eu entendi tudo errado?
você queimaria a carta na minha frente e me veria morrer de novo?
você me daria aquele olhar e me diria que me quer de volta de algum jeito?
eu fugi, você mentiu, eu estava errada e você fugiu
onde estão todos vocês agora? as galinhas e as folhas e as escadas
e as piscinas invisíveis
eles não podem me dizer
você poderia me beijar mas teria que nascer com um rosto melhor pra isso acontecer
você poderia me trair mas você já traiu, então eu não acreditaria em você, mesmo
você poderia queimar a maldita carta, eu iria rir de tudo
você poderia me beijar, eu pediria pra que você por favor não cuspisse mais no chão
seus olhos não paravam de me seguir
você não era o suficiente e eu também não
então por que nós não ficamos juntos?
se você aparecesse de novo, se me dissesse oi
eu me esconderia, fingiria que você não foi nada pra mim
eu tentei 7, 8 e 9,
eu tentei com você, ele e ele também,
não foi o suficiente, então eu posso me culpar
por dizer a verdade e por escolher pessoas como se elas fossem os feijões ruins do pacote
a areia, o plástico, a carta e o ônibus
o que eles significaram para nós?
você mentiria hoje se me visse, você me beijaria como eu sonhei que faríamos?
você me trairia e me diria que eu entendi tudo errado?
você queimaria a carta na minha frente e me veria morrer de novo?
você me daria aquele olhar e me diria que me quer de volta de algum jeito?
eu fugi, você mentiu, eu estava errada e você fugiu
onde estão todos vocês agora? as galinhas e as folhas e as escadas
e as piscinas invisíveis
eles não podem me dizer
você poderia me beijar mas teria que nascer com um rosto melhor pra isso acontecer
você poderia me trair mas você já traiu, então eu não acreditaria em você, mesmo
você poderia queimar a maldita carta, eu iria rir de tudo
você poderia me beijar, eu pediria pra que você por favor não cuspisse mais no chão
tons amarelos
é como aquele tom de amarelo que pega nas folhas
e como a escada entra na piscina que eu não posso ver
é como eles fazem por aí
ou então foi o que me disseram
eu não sei se você está confortável agora,
mas eu não estou, eu acho que não
eu ainda penso em você às vezes
não é ridículo? não é?
e quanto a você? você pensa?
é como as galinhas dizem coisas estranhas durante a noite,
e como o horizonte dessa porcaria de cidade fica fora de foco, seco e cinza
é assim que eu quero que a minha vida seja
ou então foi isso que eu tentei dizer a mim mesma naquele dia
eu não sei se estou confortável agora,
mas algo me faz pensar que estou
eu sinto a falta de um monte de coisas,
não é ridículo? eu acho besta
e quanto a você? você é?
e como a escada entra na piscina que eu não posso ver
é como eles fazem por aí
ou então foi o que me disseram
eu não sei se você está confortável agora,
mas eu não estou, eu acho que não
eu ainda penso em você às vezes
não é ridículo? não é?
e quanto a você? você pensa?
é como as galinhas dizem coisas estranhas durante a noite,
e como o horizonte dessa porcaria de cidade fica fora de foco, seco e cinza
é assim que eu quero que a minha vida seja
ou então foi isso que eu tentei dizer a mim mesma naquele dia
eu não sei se estou confortável agora,
mas algo me faz pensar que estou
eu sinto a falta de um monte de coisas,
não é ridículo? eu acho besta
e quanto a você? você é?
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