sexta-feira, 3 de setembro de 2010
muitos parênteses
Enquanto subia aqueles degraus, ela se lembrou do conselho que recebeu há alguns anos, de alguém que hoje talvez no mínimo estranhasse sua atitude. Ninguém sobe a escada pelo último degrau, não é mesmo? E ela ainda se lembrava do sorriso de batom rosa, o cabelo enrolado que mais tarde ficou liso, como na época em que ela mesma usava liso e recebia elogios pela melhora na auto-estima. Pensava como aquela época tinha sido benéfica e ao mesmo tempo sem sentido. Continuou subindo os degraus, e pensava no corrimão dos degraus das escadas de metrô, das escadas de prédios alheios, nos quais ela evitava encostar. O único corrimão por onde ela corria suas mãos era aquele da escada do prédio, a escada preta com manchinhas brancas. Mais um lance, e mais um lance, e era o sexto andar, mas naquele dia ela, por algum motivo, não estava prestando atenção enquanto subia. Isso era coisa que nunca acontecia, mas estava dentro de si mesma, dentro de pensamentos que não se lembrava mais de onde vinham, mas que tinham a ver com a incrível, estupenda, enorme, generosa sensação de liberdade e sou-eu-mesma que ela estava vivendo. Beijar não é como andar de bicicleta. Estava livre, e continuou subindo. De repente algo parece estranho. Ela para em frente à parede, curiosa, esperando, como se soubesse que de repente sua cabeça ia fazer clic e ela ia perceber que subiu um lance a mais, já a caminho do oitavo andar. Mas isso nunca acontecia. Só aconteceu uma vez, ela lembra bem, quando foi buscar a pizza, contrariada, e tinha acabado de alisar os cabelos (era naquela época de suposta alta auto-estima, e disso, ah, disso ela discordava profundamente, porque naquela época tinha muito trabalho para alisar os cabelos. Sempre queimava a ponta dos dedos, e detestava o cheiro, e detestava ver as raízes insistindo em enrolar em um dia de calor ou depois de pegar aquela garoinha que ela pensou que não fosse estragar o cabelo, mas estragou. Adorava os cabelos agora que estavam tingidos de ruivo, mesmo sendo um ruivo já meio loiro de desbotado, com as raízes escuras aparecendo bem, as pontas tão deliciosamente enroladas, ao natural, sendo o que são, sem necessidade de queimaduras. Isso, para ela, era verdadeira auto-estima, não cabelo falso, trabalhoso, fedido, com luzes que pareciam verdes depois de um tempo, apagando seu rosto.) e os meninos do prédio, com os quais ela não conversava, (tinha gostado bastante de um. Ele era alto, tinha o cabelo enrolado, era branquinho e fazia muito bem o seu tipo. Pensava, com saudades, se ele ainda morasse no prédio, talvez hoje ela tivesse coragem. Mas ele se mudou há alguns anos.) ou talvez tenha sido um menino e uma menina, uns idiotas, ela nem sabia quem eles eram mas os dois insistiam em mexer com ela toda vez que passava pelo corredor escuro com um toldo lá embaixo, (por isso adquiriu o hábito de só tirar os fones de ouvido quando já estava na porta do apartamento, ou aumentar o som ao cruzar o portão do prédio, para evitar ouvir aquelas pessoas que mexiam com ela sem ter um porquê de mexer com ela, que tanto machucavam sem precisarem realmente machucar) disseram mais uma vez palavras grosseiras dolorosas. Ela estava nervosa, muito nervosa, não via sentido naquilo, e odiava receber xingos assim, sem motivo, odiava quando faziam aquilo com ela na escola, também. Então subiu até o oitavo andar, o último, sem perceber, e deu de cara com a portinha medonha que leva ao telhado, e não com mais um lance de escadas, o nono andar inexistente. Foi pânico, foi medo para tudo quanto é lado, inundando a escada, fazendo tudo difícil de respirar. Ela desceu de volta ao sétimo, chegou em casa, não contou para a família que mexeram com ela lá embaixo, não com as exatas palavras que ainda doiam bastante. Isso ela contou para a senhora de cabelos encaracolados, mais tarde alisados, e batom rosa. Mas desta vez nem sequer chegou até a portinha medonha. Ela percebeu bem antes que tinha subido só um lance a mais. Tem algo errado, não sabia como sabia, mas sabia, e voltou. Encontrou que estava certa, realmente passou do andar certo, e abriu a porta, já sua bem conhecida, sem necessidade de 7 na frente, e chegou em casa.
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