não sei, mas acho que não quero mais. acho que só sei reclamar por estar sozinha, mas no fundo, não quero nada com ninguém. eu sinto que, se me relacionasse com alguém, se ficasse com alguém ou arrumasse um namorado ou coisa que fosse, não seria mais eu. e por deixar de ser eu, seria feliz? poderia recuperar nas entranhas de mim aquele aspecto que me fazia olhar para mim mesma e dizer que eu era eu? parece que eu complico demais as coisas e fujo demais, também. mas é como eu me sinto. não sei te explicar exatamente, mas é como eu me sinto, e talvez eu deva parar de reclamar e aceitar as coisas como estão agora. talvez eu queira ser criança para sempre. talvez a coisa pela qual eu mais esteja desejando nos últimos anos seja só uma fantasia, um carrossel, um algodão apetitoso na mão dos outros, aquele algodão-doce que você quer muito, mas quando prova, sente-se enjoado. o algodão-doce da perda da identidade. perder quem eu sou. às custas de quê? quero morrer sozinha. vou parar de mentir para mim mesma e dizer a verdade: quero ficar sozinha. tenho fugido dessa verdade, mas agora eu vejo. quaisquer relacionamentos iminentes me assustam, e eu prefiro meu cantinho cômodo e úmido, onde eu sou feliz. sou acomodada, sim, não sou aventureira, sou um gato caseiro que come e dorme o dia inteiro. só quero uma coisa da minha vida agora: estudar. o resto, desculpe pela falta de palavra melhor, que se foda. por favor, não quero nada. o que fazer agora que eu não quero mais? fugir. a palavra é fugir. vou fugir, como eu sempre faço, porque não quero, não quero, desesperadamente, mil vezes, NÃO QUERO perder quem eu sou. e não acho que sou a única a pensar assim no mundo. gosto de admitir.
você pode pensar que eu sou hipócrita, e que eu estou mentindo para mim mesma, eu, sinceramente, penso que isso vai passar, mas não quero que passe. não tinha reparado nisso, é meio novo para mim, admitir que aquela porta trancada dentro de mim quer continuar trancada. me conformei, pronto. vou ficar onde estou. não quero ninguém. mesmo que venha alguém, nunca é o suficiente para mim, e não quero fazer ninguém sofrer, acima de tudo, não quero me fazer sofrer. então acabou. dou adeus definitivo ao navio no porto, sou a esposa chorosa acenando com um lenço, sou a garrafa de vidro quebrada no casco, sou a fumaça que sai, sou as gaivotas piando, voando, pousando, sou as lajotas do cais, sou o marinheiro que perdeu o barco, sou tudo, menos o navio. não estou dentro do navio. queimei meu passaporte. vou ficar para sempre sentada aqui, parada aqui. porque não quero deixar de ser eu. porque não quero ter que passar por todas as etapas que precedem a felicidade, o que eu realmente quero, fazendo do que eu quero impossível. posso estar morrendo. meu coração é um pedaço de gelo polar. meu coração é uma redoma de vinte camadas de vidro com nada dentro. ou meu coração é um vazio. já imaginou um oco dentro do seu peito, imaginou mesmo? nada entre os seus pulmões, seu sangue se bombeando sozinho? deixei meu coração lá atrás, naquela rua da minha vida de sarjeta, dentro do bueiro, e meu peito secou e cicatrizou e hoje sou feliz sem coração. obrigada.
quinta-feira, 12 de março de 2009
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