sábado, 4 de abril de 2009

PÁVIDA

Descobri que estou grávida.
Grávida de mim mesma.
O meu sangue não vem já faz um mês.
Estou grávida, portanto.
De mim mesma.

Vou parir o novo messias.
Ainda se meu nome fosse Maria.
Vou até sair no jornal,
em grandes letras pretas.
Vou jorrar um filho.

Um clone de mim.
Talvez até dois, e vou poder ir às lojas de bebês,
e comprar todas aquelas coisinhas interessantes,
e minha barriga vai crescer,
e depois de nove meses,
um clone de mim.

Minha vida vai fazer sentido.
Vou nutrir e crescer,
e amamentar, e cuidar.
De alguém mais que não eu, clone, bebê.
Vou saber o que é ser mãe,
e vai bastar.

Sentir algo crescer nas minhas entranhas,
mágico, não saber nem de onde veio.
Vou gritar para o mundo que os modos atuais de concepção são mentiras,
que é possível engravidar de si mesma.
Letras, rostos, olhos, cores, tudo vai sair de mim.
Sangue, e veias, e tecido, e homens, tudo vai sair de mim.

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