sábado, 24 de janeiro de 2009

o sangue e o branco

eu nunca passei tanta dor na minha vida. minha mãe não segurou a minha mão. eu lembro que o médico me disse: "por quê você veio de branco? quem mandou você ficar assim?" e eu ouvi como "você é a pessoa mais burra do mundo." me expor, deitar naquela maca branca, minha blusa branca, a dor, e a dor. a tesoura e a agulha, o não enxergar minha pior operação. puxa, aperta, puxa, o que eu fiz para merecer? as lágrimas escorrem, mas nenhum pio da minha parte. não, eu sou forte, eu sou forte, eu sou forte. médico idiota, dor, dor, dor. o sangue, o algodão-sangue, o metálico frio, duro, metálico, o ferro, o forte. "lave três vezes por dia, com água quente e sabão." claro, doutor, obrigada, adeus, tchau, acabou. corredor, amarelo, luz, mamãe. os táxis lá fora, as pessoas olhando, mãe, chama o táxi que eu não aguento voltar de ônibus. drenou, saiu, foi, mas dói, dói. eu não sou forte, mãe, eu estou sozinha. eu sou sozinha, eu nasci sozinha, eu estou sozinha. eu nunca passei tanta dor na minha vida, e aquela blusa branca eu nunca mais usei. blusa ridícula, ficou manchada de sangue. e parecia que o meu cabelo ficou encharcado de sangue, eu lembro do cheiro de cigarro na minha roupa. mamãe fuma. mamãe me abraça. as lágrimas escorrem, por que eu, por que eu? o que eu fiz pra merecer? eu estou sozinha, mãe. dói demais, demais, eu fui humilhada por um homem de branco, algodões e bactérias. não chora dentro do táxi, o que o motorista vai pensar. eu rio então, um sorriso triste, sofrido, tremido. sozinha.

faz passar, eu nunca passei tanta dor na minha vida.

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